As comédias românticas modernas devem muito às clássicas screwball comedies produzidas por Hollywood entre as décadas de 1930 e 1940. Com diálogos rápidos e espirituosos, humor sofisticado, ritmo acelerado e uma visão surpreendentemente avançada sobre relações de gênero e diferenças de classe, esse subgênero deu origem a alguns dos filmes mais influentes da história do cinema.
Entre eles está Jejum de Amor, lançado em 1940. O longa não apenas figura entre os 12 filmes favoritos de Quentin Tarantino — ao lado de clássicos como Tubarão, Taxi Driver e Apocalypse Now — em uma lista organizada pela revista Sight & Sound, como também ostenta impressionantes 99% de aprovação no Rotten Tomatoes, ocupando um lugar entre os 100 filmes mais bem avaliados de todos os tempos.
Jejum de Amor: Uma das maiores comédias da história do cinema
Jejum de Amor marcou a terceira de cinco colaborações entre o diretor Howard Hawks e o astro Cary Grant. Dois anos antes, a dupla já havia trabalhado junta em outro marco da screwball comedy: Levada da Breca.
A trama acompanha Hildy Johnson (Rosalind Russell), uma jornalista brilhante que decide abandonar a correria das redações para se casar com o corretor de seguros Bruce Baldwin (Ralph Bellamy). A decisão, porém, desagrada profundamente seu ex-marido e chefe, o editor Walter Burns (Cary Grant).
Quando um condenado à morte consegue fugir da prisão, Hildy aceita trabalhar ao lado de Walter em uma última grande reportagem. Enquanto os dois investigam o caso, o editor vê surgir a oportunidade perfeita para tentar reconquistar a ex-esposa.
Columbia Pictures
Howard Hawks queria fazer o filme com os diálogos mais rápidos da história
Ao realizar Jejum de Amor, Howard Hawks tinha um objetivo bastante ambicioso: criar o filme com os diálogos mais rápidos já vistos no cinema. Para tornar possível a sucessão de falas interrompidas e sobrepostas, o diretor recorreu a uma solução técnica inovadora para a época.
Durante as filmagens, um técnico de som ficava responsável por alternar continuamente entre os diversos microfones espalhados pelo set, garantindo que todas as falas fossem captadas. Anos depois, Hawks explicou sua estratégia.
Às vezes acrescentávamos algumas palavras extras no início e no fim das frases para que os personagens pudessem falar uns sobre os outros e, ainda assim, tudo permanecesse compreensível. Para mim, isso soava muito mais próximo da vida real.
Essa técnica de diálogos sobrepostos acabaria sendo aperfeiçoada décadas depois pelo diretor Robert Altman, tornando-se uma das principais marcas de filmes como Nashville e Short Cuts – Cenas da Vida. Até hoje, o recurso continua sendo utilizado para dar mais naturalidade às conversas em cena.
O filme mais rápido da história?
Embora seja difícil afirmar com precisão se Hawks realmente bateu esse recorde, ele fez questão de provar seu ponto. Na época, o cineasta organizou uma sessão dupla exibindo Jejum de Amor ao lado de The Front Page, adaptação de 1931 dirigida por Lewis Milestone da mesma peça teatral, para demonstrar que sua versão era significativamente mais veloz.
Mesmo passadas mais de oito décadas, o filme continua impressionando pelo ritmo frenético. Os diálogos se sucedem em velocidade impressionante, as piadas surgem praticamente a cada segundo e os acontecimentos se acumulam sem dar trégua ao espectador.
É justamente esse domínio absoluto do tempo cômico e da encenação que faz de Jejum de Amor uma das maiores referências do gênero e uma obra que permanece surpreendentemente moderna até hoje.