A cerimônia do Oscar, como tudo em Hollywood, é cuidadosamente planejada para ocorrer de uma maneira muito específica: sem controvérsias e sem que ninguém se irrite demais. Os atores mais populares tendem a guardar suas opiniões políticas para si mesmos ou a expressá-las superficialmente. Dessa forma, eles parecem neutros e amigáveis, sem tomar partido e, portanto, atraindo um público mais amplo. É por isso que, há 23 anos, quando Michael Moore subiu ao palco para receber seu Oscar e seu discurso gerou vaias e aplausos, os atores sentados nas primeiras fileiras não reagiram.
Política no palco
Para entender o que aconteceu, é preciso compreender o contexto político da época. George W. Bush era o presidente dos Estados Unidos e, naquele mesmo ano, em 2003, invadiu o Iraque sob o pretexto de que o país possuía armas de destruição em massa. A Espanha, sob a liderança de José María Aznar, também se envolveu.
Em 2003, realizou-se a 75ª edição do Oscar e Moore ganhou a estatueta de Melhor Documentário por Tiros em Columbine, projeto no qual ele explora a percepção, o uso e a relação dos Estados Unidos com as armas de fogo.
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A frase que provocou as vaias
Moore convidou os outros indicados de sua categoria para se juntarem a ele no palco. "Vocês estão aqui em solidariedade porque amamos o gênero não-ficcional. Amamos o gênero não-ficcional porque vivemos em tempos fictícios", começou ele. 37 segundos após o início de seu discurso, as vaias irromperam. A frase que as provocou foi: "Vivemos em uma época em que resultados eleitorais fictícios nos dão um presidente fictício", referindo-se a Bush. Ele continuou: "Agora estamos travando uma guerra por razões fictícias", disse ele sobre invasão do Iraque. "Somos contra esta guerra, Sr. Bush. Que vergonha, Sr. Bush! Que vergonha!"
Enquanto as vaias irrompiam, a câmera focou na plateia. Mais especificamente, no rosto de Adrien Brody, que parecia incerto sobre como reagir. A cena então cortou para Martin Scorsese, que, antes da mudança de câmera, começou a aplaudir. Finalmente, a câmera focou em uma fileira inteira de atores, incluindo Nicole Kidman, Calista Flockhart, Harrison Ford e Denzel Washington, impassíveis.
A história do Oscar, embora tentem evitar, tem mais do que sua cota de momentos constrangedores, tensos e embaraçosos. George Clooney, por exemplo, irritou metade do mundo com seu discurso em 2006. Amy Madigan, por outro lado, não aplaudiu Elia Kazan por seu Oscar honorário 27 anos atrás.