Stellan Skarsgård evita transformar atuação em teoria. Em Valor Sentimental, novo filme de Joachim Trier, o ator sueco interpreta Gustav, um pai emocionalmente distante que tenta se reconectar com as filhas depois de anos de ausência — um papel atravessado por silêncios, desconfortos e sentimentos mal resolvidos. Para ele, nada disso nasce de fórmulas.
“Meu processo está muito longe de qualquer coisa sobre a atuação de método. Trabalhei muito no teatro, onde você simplesmente entende a situação, entende o personagem dentro dela e reage. É isso”, explicou o ator, em entrevista ao AdoroCinema.
Segundo Skarsgård, o trabalho começa sempre pelo contexto, não pela psicologia excessiva. “Você tem a situação e o personagem naquela situação. Isso te dá uma liberdade enorme. Você pode fazer diferente a cada tomada, mudar pequenas coisas, e isso mantém tudo vivo.”
No filme, Gustav é um homem que parece incapaz de verbalizar sentimentos, mesmo quando tenta se aproximar das filhas. O ator reconhece essa dificuldade como parte central do personagem. “Ele não é alguém que sabe pedir desculpas direito”, diz. “E muitas vezes, quando você não sabe como consertar algo, acaba fazendo nada.”
Distância emocional e personagens imperfeitos em Valor Sentimental
MUBI
Skarsgård rejeita a ideia de tornar Gustav mais simpático ou justificável. “Não acho interessante suavizar as falhas de um personagem. Todo mundo carrega contradições. Se você tenta explicar demais, tira isso do público.”
Essa escolha dialoga diretamente com a proposta de Joachim Trier, conhecido por confiar na inteligência do espectador. “Joachim não quer entregar respostas prontas. Ele gosta de deixar espaços em branco, e eu também.” Para Skarsgård, esse silêncio diz tanto quanto qualquer diálogo. “Há coisas que você não precisa explicar. Às vezes, o que não é dito é exatamente o que importa.”
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“Gostei de Gustav porque decidi desde o início que ele não sabe o que está fazendo. Ele não sabe que não consegue se comunicar com a filha. Ele tenta. Ele se esforça muito. E é realmente triste que ele não consiga alcançá-las. E eu estava pensando na última cena. O olhar ali é muito importante para o personagem, porque de certa forma reflete o próprio filme. E eu tinha medo de que, ao ler o roteiro, você percebesse imediatamente o quão perigoso ele era, porque poderia ser um final meloso e feliz. E isso seria terrível.“
Ao falar sobre relações familiares, o ator evita transformar o filme em um manifesto sobre redenção. “Não vejo a história como a de alguém buscando perdão. É mais sobre lidar com o que já foi feito ou com o que nunca foi. Ele nunca chega a entendê-las completamente porque pertence a uma geração mais antiga que a minha, mesmo tendo a mesma idade, pois é mais um homem do século XX, com todas as limitações que isso acarreta."
Mas o curioso é que ele parece conseguir, no cinema, na sua arte, retratar isso. E é muito comum que o artista consiga mostrar com sutileza, compaixão e tudo mais na arte, mas não consiga lidar com a vida real, porque a vida artificial é, pelo menos, controlável.
Valor Sentimental fez Stellan Skarsgård refletir sobre a própria paternidade
Pai de oito filhos, incluindo os famosíssimos Bill e Alexander Skarsgård, Stellan encontrou inspiração em sua própria vida real para interpretar Gustav.
"Eu sou um pai imperfeito. Ser o pai ideal é algo impossível. E ser a mãe ideal é igualmente impossível. Não leia livros sobre como ser um bom pai. Não tente ser perfeito. Aceite que você é imperfeito. E faça com que as crianças aceitem suas imperfeições. Certifique-se de que elas não o vejam como um deus ou algo do tipo, só porque você é o pai. Nenhuma hierarquia deve existir em nenhuma família ou em nenhuma sociedade."
Valor Sentimental aposta nesse desconforto emocional constante, e Skarsgård vê isso como um reflexo honesto da vida. “Famílias raramente funcionam como nos filmes. Elas são confusas, cheias de ressentimentos pequenos, e isso nunca se resolve completamente.”
O filme, também estrelado por Renate Reinsve, Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning, já está em cartaz nos cinemas brasileiros.