Peter Jackson não conseguiu levar um popular videogame para o cinema, mas esse fracasso financeiro abriu as portas para uma das surpresas mais refrescantes da ficção científica moderna
Giovanni Rodrigues
Giovanni Rodrigues
-Redação
Já fui aspirante a x-men, caça-vampiros e paleontólogo. Contudo, me contentei em seguir como jornalista. É o misto perfeito entre saber de tudo um pouquinho e falar sobre sua obsessão por nichos que aparentemente ninguém liga (ligam sim).

Às vezes, não resta outra escolha a não ser improvisar com o que se tem, e em algumas ocasiões isso é o melhor.

Em meados dos anos 2000, a indústria cinematográfica vivia um caso de amor particular com os videogames, embora quase sempre à base de tropeços. Nesse contexto, um diretor neozelandês que vinha de arrasar com O Senhor dos Anéis parecia a melhor aposta para mudar a tendência. No entanto, aquela aventura cinematográfica não foi exatamente o que se esperava, e o desfecho, embora soasse a fiasco nos escritórios, acabaria se tornando uma das maiores surpresas da ficção científica recente.

No início da década, Peter Jackson e sua equipe lançaram-se com entusiasmo para produzir uma adaptação de Halo, o gigante do Xbox que na época era o rei absoluto dos shooters. A ideia parecia perfeita: um universo rico, um diretor com músculo criativo, uma fandom disposta a fazer o que fosse preciso e um plano de produção ambicioso que incluía o estreante Neill Blomkamp atrás da câmera.

Mas, como tantas vezes acontece em Hollywood, as contas não fecharam.

Por que o filme de Halo não aconteceu?

Segundo reportou a Variety em 2007, as negociações financeiras emperraram entre os grandes estúdios, os orçamentos começaram a inflar e o projeto terminou em um limbo tão grande quanto um anel de Halo. A crônica mais completa daquele “quero e não posso” está contada em detalhes em uma fantástica reportagem da VICE, onde produtores, criativos e desenvolvedores reconstroem, quase como terapia, como aquele sonho foi se desmoronando peça por peça.

WingNut Films / QED International

Ainda assim, longe de ficarem de braços cruzados, Jackson e Blomkamp decidiram aproveitar todo o brinquedo criativo que haviam acumulado: designs, armaduras, adereços, testes de efeitos especiais e até parte da filosofia visual que haviam desenvolvido para o projeto abortado. Foi um movimento que, visto agora, parece de uma intuição brutal.

Todo esse material, que deveria fazer parte de uma epopeia galáctica multimilionária, acabou alimentando uma história muito mais contida e com um tremendo toque social. Assim nasceu Distrito 9, um filme que ninguém esperava e que, contra todas as expectativas, se tornou uma lufada de ar fresco dentro do gênero.

Assim nasceu Distrito 9

WingNut Films / QED International

Filmado com um orçamento extremamente modesto em comparação com o que teria custado Halo, incorporou alguns dos designs destinados aos marines espaciais e os transformou em uma linguagem visual única, suja, realista e tremendamente humana.

O resultado já é história do cinema recente: o filme foi indicado ao Oscar, conquistou o público por sua mistura de ação, sátira e drama social, e colocou Blomkamp no mapa como uma das vozes mais chamativas da ficção científica contemporânea.

Distrito 9
Distrito 9
Data de lançamento 16 de outubro de 2009 | 1h 52min
Criador(es): Neill Blomkamp
Com Sharlto Copley, Jason Cope, David James (XLII)
Usuários
4,1
Adorocinema
4,0
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Paradoxalmente, o fracasso financeiro de Halo acabou sendo a semente de um dos filmes mais originais de sua década. E talvez, afinal, essa seja a magia do cinema: às vezes o melhor projeto não é o que se planeja durante anos, mas sim o que surge quando tudo deu errado e não resta outra escolha a não ser improvisar com o que se tem.

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