"O dinheiro funciona como linguagem": Diva do cinema francês, Isabelle Huppert cria sua própria versão da Mulher Mais Rica do Mundo em dramédia inspirada numa história real (Entrevista)
Júlia Barbosa
Criada no palco, sempre foi movida pela arte. Defensora ferrenha de Crepúsculo e Ricardo Darín, fala pelos cotovelos sobre as histórias que vemos nas telas e nos bastidores.

Livremente baseado no polêmico caso Bettencourt-Banier, Isabelle Huppert protagoniza o filme A Mulher Mais Rica do Mundo. A produção faz parte do catálogo do Festival de Cinema Francês do Brasil 2025.

Nas artes vemos a prática de transformar grandes talentos em metonímia e até adjetivos. Tendo a referência, é possível visualizar um "jardim muito Monet" ou um "visual Bardot", certo? Com mais de 150 filmes no currículo e incontáveis homenagens, Isabelle Huppert consagra-se em vida como uma instituição cinematográfica digna da figura de linguagem.

Tal título lhe confere a liberdade para determinar suas próprias regras na atuação. Tanto que em A Mulher Mais Rica do Mundo ela aproveita bem o card de "livremente baseado em fatos reais" para construir uma personagem totalmente sua. Com seu novo filme na bagagem, a dama do cinema francês chegou ao Rio de Janeiro na última semana para apresentá-lo no Festival de Cinema Francês do Brasil 2025, onde o AdoroCinema teve a oportunidade de conversar com ela em entrevista exclusiva.

A Mulher Mais Rica do Mundo de Isabelle Huppert lucra com a liberdade narrativa

Divulgação

Dirigido por Thierry Klifa, La Femme la Plus Riche du Monde conta a história de Marianne Farrère (Isabelle Huppert), magnata dos cosméticos considerada a mulher mais rica e influente do mundo. Ao conhecer Pierre-Alain Fantin (Laurent Lafitte), um escritor e fotógrafo, ela desenvolve uma grande amizade irreverente com o dândi autodeclarado. Entre saídas para compras, presentes milionários e festas, a família de Marianne desconfia que Fantin esteja abusando da fortuna da empresária e move um processo criminal contra ele.

O enredo é inspirado no polêmico caso Bettencourt-Banier, que povoou os jornais franceses nos anos 2010 quando o fotógrafo François-Marie Banier virou réu por abuso de vulnerabilidade. Do outro lado do tribunal (e das manchetes) estava a família de Liliane Bettencourt, herdeira do grupo L'Oreal e alvo de golpes disfarçados de amizade de Banier, que estaria aproveitando o quadro de demência da bilionária para extorquí-la.

Ainda que o fio condutor do enredo seja o mesmo da vida real, Huppert e Klifa deixaram os fatos para documentários como A Bilionária, o Mordomo e o Namorado. Então, ao invés de seguirem o caminho tradicional das cinebiografias e do true crime, o longa investe em uma dramédia novelesca:

"Há um truque no 'livremente inspirado em fatos reais'. Essa foi a ideia genial de Thierry Klifa: não contar a história pelo fim, que todo mundo já sabia na época do escândalo, mas sim pelo começo. O público não sabia disso, porque, na verdade, ele conheceu essa mulher muito tempo antes do escândalo estourar. E isso permitiu muita liberdade e, talvez, em última análise, um retrato mais justo do que a história é verdadeiramente", afirma Huppert.

A atriz reforça que não cabe a ela dar qualquer veredicto ou interpretação sobre o caso real, uma vez que ela se ateve ao roteiro para desenvolver a personagem. Inclusive, enfatiza que "gostou muito que a personagem se chamasse Marianne Farrèrre e não Liliane Bettencourt" pois desenvolver o processo a partir do nome de uma pessoal real delimita uma "barreira mental".

Isabelle Huppert e Laurent Laffite exploram as áreas cinzentas de uma amizade escandalosa

Mesmo tratando-se de uma produção francesa, Marianne e Pierre-Alain formam uma dupla que poderia vista em uma novela das nove. Tal reconhecimento advém da mise-en-scène dotada de tom bastante teatral, sobretudo quando o personagem de Laurent Laffite não se curva diante do decoro do clã Farrère para proferir as maiores e mais sinceras atrocidades.

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Ao longo do filme, vemos que a protagonista deleita-se tanto com o jeito expansivo e desbocado do novo amigo à ponto de, talvez,passar por cima ( ou 'Passer outre', em francês, como Isabelle pontou), do comportamento exploratório e abusivo dele. Isso cria um espaço igualmente turvo e aberto para interpretações:

"O fato dessa relação ser cinzenta e indefinida ajuda bastante. Permite usar todas as possibilidades que o cinema oferece para permanecer ambígua e em um âmbito mais sutil. E eu e o Laurent nos divertimos muito. Havia situações tão intensas e constantes com o Fantin que cria-se uma sensação tão profunda de desconforto que é muito fácil de interpretar", pondera.

O dinheiro é uma linguagem entre os super-ricos da realidade e da ficção

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Sobre a amizade "intensa e ambígua" que rege a trama, Huppert entende que analisar Marianne somente como a vítima de um relacionamento parasitário reduz a dinâmica da personagem com sua fortuna e consigo mesma a algo superficial:

"Acho que o dinheiro funciona como uma espécie de linguagem no filme. Para todos, o significado não é o mesmo. Ela considera — e com razão, pois é realmente o caso — que está dando dinheiro a ele. A família dela, por sua vez, acha que Fantin está tirando dinheiro deles. Obviamente, isso cria duas percepções completamente opostas. Se ela está dando dinheiro, então ela é alguém forte e gosta disso porque reforça sua própria imagem como mecenas. Ela também está realizando uma parte de si mesma dessa forma".

Por outro lado, Isabelle avalia que a ótica contrária também é possível já que Farrèrre estaria sendo manipulada em certa instância. Como ela não quer ser vista como fraca, estamos constantemente presos entre fraqueza e força, o tempo todo", disseca.

Diante dos dilemas e dúvidas provocados pela amizade que rege o longa, Isabelle Huppert espera que o público reflita sobre como "o cinema nos permite explorar toda uma dimensão da história à qual a simples leitura dos acontecimentos nos jornais não nos dá acesso" a partir da ficção.

A Mulher Mais Rica do Mundo
A Mulher Mais Rica do Mundo
Criador(es): Thierry Klifa
Com Isabelle Huppert, Marina Foïs, Laurent Lafitte

O 16º Festival de Cinema Francês do Brasil acontece até o dia 10 de dezembro em mais de 50 cinemas pelo país. A Mulher Mais Rica do Mundo, estrelado por Isabelle Huppert, é um dos 20 longas-metragens exibidos no evento.

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