Desde que apareceu pela primeira vez nas telonas, no final da década de 1920, com seus desenhos animados em preto e branco, Mickey Mouse tem uma aparência muito peculiar. Seu comportamento jovial e cartunesco era acompanhado por suas características orelhas, shorts e luvas brancas. Durante anos, esse último detalhe fascinou os fãs da Disney, já que pode ser encontrado em praticamente todos os outros personagens da série.
O próprio Walt Disney afirmou que isso se devia à sua caracterização: "Não queríamos que ele tivesse mãos de rato, porque era para ser mais humano. Então, demos luvas a ele", disse o produtor em sua biografia de 1968, The Disney Version.
Do ponto de vista da animação, argumentou-se que essa era uma forma de economizar mão de obra no processo, já que as formas eram arredondadas e simples. Além disso, como a animação é em preto e branco, isso fez com que as mãos se destacassem mais do corpo.
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Independentemente de quão prático fosse ou não em termos de animação, há outro motivo pelo qual a empresa preferiu deixá-lo de lado. Em um documentário da Vox, eles relembram um antigo curta do Mickey Mouse de 1929 chamado The Opry House.
Aqui, o camundongo revelou sua faceta de artista de massa com uma performance no palco. Foi o primeiro curta em que o vimos usando as famosas luvas, e ele as usou especificamente para executar uma dança pitoresca.
É aqui que fica difícil não pensar na conexão com o vaudeville e os espetáculos de menestréis. Trazido da França e adaptado para atender ao público americano, foi um gênero de teatro de variedades de grande sucesso do final do século XIX até a década de 1930 (coincidindo precisamente com o nascimento do Mickey Mouse). O objetivo era entreter o público com dança, canto e comédia física.
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O menestrel, um subgênero americano centrado na cultura afro-americana, sempre contou com atores brancos de blackface, que se tornaram verdadeiras estrelas do mundo do "entretenimento" — e coloca muitas aspas nisso! Esse espetáculo, popularizado por figuras como Jim Crow, criou uma distorção cultural do homem negro, exagerando suas feições e ridicularizando-o com danças e gestos caricatos. Entre as peças-chave de seu traje estavam as luvas brancas.
Se as luvas não forem motivo suficiente para pensar assim, outros curtas-metragens são mais explícitos sobre a conexão entre a Disney e os shows de menestréis. PushBlack fez referência a Mickey's Mellerdrammer, outro curta-metragem centrado inteiramente em um show do Mickey, com conotações raciais impossíveis de ignorar.
Em uma cena, Mickey coloca uma banana de dinamite na boca e suja todo o rosto com fuligem, deixando apenas a boca sem sujeira, outra característica fundamental dos caricatos de blackface, que tinham lábios brancos ou vermelhos.
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No mesmo episódio, vemos outros personagens passarem pelo mesmo processo no camarim, confirmando que não era só do Mickey, mas sim parte de todos os personagens clássicos da Disney e do "humor" da casa na época, do Mickey ao Pateta.
Essa origem racial faz parte do personagem desde sua primeira aparição, já que a música que ele assobia no lendário filme de animação Steamboat Willie é baseada em Old Zip Coon, uma canção folclórica de shows de menestréis.