O ofício jornalístico é rodeado de pormenores. Para se fazer entrevistas, o trabalho de pauta, pesquisa e escrita é apenas um pequeno detalhe de toda a composição deste trabalho, que ainda tem a energia dos entrevistados, o tempo disponível e a entrega de todos os envolvidos como fatores decisivos.
Para quem trabalha com cultura, especialmente TV e cinema, sabe o quão difícil e precioso é encontrar um espaço para conversar com atores, atrizes, diretores, roteiristas, produtores ou profissionais do entretenimento sobre seus trabalhos. É justamente por isso que, quando um episódio marca negativamente a experiência geral, é preciso refletir sobre o exercício jornalístico.
Recentemente, durante a divulgação de Depois da Caçada no Festival de Cannes, Ayo Edebiri passou por uma situação constrangedora. Em uma entrevista a ArtsLife TV, a jornalista Federica Polidoro deixou a estrela de The Bear desconfortável ao questionar apenas Julia Roberts e Andrew Garfield sobre o status dos movimentos Black Lives Matter e #MeToo em Hollywood, anos após impactarem a indústria cinematográfica.
“Não sei se foi proposital...”
Sony Pictures
A entrevistadora perguntou nominalmente o que os dois podiam "esperar em Hollywood depois que o movimento #MeToo e o Black Lives Matter acabaram". Ao ouvir a pergunta, a estrela de Um Lugar Chamado Notting Hill já pareceu intrigada: "Você pode repetir isso? E com seus óculos de sol, não consigo dizer com qual de nós você está falando".
Com isso, a jornalista repetiu a pergunta, direcionando-a mais uma vez para Andrew e Julia, e ainda perguntou se "perdemos algo com a era do politicamente correto". Ayo que estava ao lado dos colegas de elenco pareceu constrangida e chocada por ser excluída de uma pergunta que lhe competia boas considerações - por ambos os temas, é preciso dizer. Durante o momento de perplexidade de todos, ela interveio:
“Eu sei que isso não é para mim, e não sei se foi proposital não ser para mim... [mas] não acho que [os movimentos] tenham acabado”, interrompeu Edebiri. “Não acho que esteja terminado de jeito nenhum. Hashtags podem não ser usadas tanto, mas acho que há um trabalho sendo feito por ativistas, por pessoas todos os dias, que é um trabalho lindo e importante. Isso não está terminado, é realmente muito ativo por um motivo, porque este mundo está realmente carregado. E esse trabalho não está terminado de jeito nenhum.”
"Foi uma loucura": Ator de Friends fala sobre falta de diversidade na série e percepção da trama hoje em diaO astro de O Espetacular Homem-Aranha acrescentou dizendo que os "movimentos ainda estão absolutamente vivos". Com isso, Ayo completou: "Talvez não haja cobertura da grande mídia como poderia ter havido, manchetes diárias como acontecia há cerca de oito anos, mas não acho que isso signifique que o trabalho esteja concluído. É o que eu diria."
“O desconforto dos 3 foi visível”
Nas redes sociais, internautas pareceram tão chocados quanto a artista. "A cara de desconforto dos dois e de incredulidade da Ayo era mais do que suficiente pra não repetir essa pergunta podre", disse uma usuária do Instagram. "Que comparação é essa de 'politicamente correto' com um movimento que visa proteger vidas??", escreveu outra.
“A Júlia ainda deu a opção da mulher se reerguer, mas ela foi lá e repetiu mesmo! O desconforto dos 3 foi visível. A Ayo foi rápida. Arrasou!”, também comentou uma usuária da rede social.
"Harry Potter não tinha amigos negros": Ator da Marvel detona franquia de J.K. Rowling e O Senhor dos Anéis por falta de diversidadeNas redes sociais, a jornalista que fez a entrevista publicou uma nota sobre o caso por receber comentários com "linguagem violenta, ataques pessoais e cyberbullying". Federica ironizou as pessoas que questionaram o método de sua entrevista, dizendo que "não tenho conhecimento de nenhum protocolo que determine a ordem em que as perguntas devem ser feitas em uma entrevista" acusando o público de "censurar ou deslegitimar perguntas consideradas 'desconfortáveis'", algo que "não se enquadra na prática da democracia".
"Para aqueles que injustamente me acusam de racismo, gostaria de esclarecer que, em meu trabalho, entrevistei pessoas de todas as origens e etnias, e minha própria família é multiétnica, matriarcal e feminista, com um histórico significativo de imigração. Colaborei por mais de vinte anos com inúmeras publicações nacionais e internacionais de todas as orientações políticas, sempre abordando meu trabalho com abertura e rigor profissional. Na minha opinião, os verdadeiros racistas são aqueles que veem racismo em todos os lugares e buscam amordaçar o jornalismo, limitando a liberdade de análise, o pensamento crítico e a pluralidade de perspectivas".
Embora a comunicadora tenha se sentido pressionada por, supostamente, fazer perguntas com "temas delicados", a indagação de Ayo, dos internautas e da própria mídia que reverberou o episódio surgiu pela forma como a entrevista foi conduzida e a exclusão de uma atriz que poderia (e contribuiu) para um assunto que lhe competia em inúmeras frentes.
Qual é a história de Depois da Caçada?
Sony Pictures
Na trama, uma das alunas mais promissoras de Olsson, a jovem Maggie Price, vivida por Ayo Edebiri, busca o apoio da professora após fazer uma grave acusação contra o professor Hank Gibson, interpretado por Andrew Garfield. Dividida num dilema entre sua aluna protegida e seu colega e amigo íntimo, a personagem de Roberts enfrenta uma crescente tensão no ambiente acadêmico, expondo dilemas éticos e as complexidades das dinâmicas de poder envolvendo gênero, raça e reputação institucional.
Dirigido por Luca Guadagnino, Depois da Caçada abrirá o Festival do Rio 2026 e, em breve, deve entrar no circuito nacional.