Mesmo que esse filme possa ser definido, até certo ponto, como anti-sentimental, há uma carga emocional muito grande e muito forte dominando toda as sessões que Capote tinha que com Perry. Bennett Miller faz um trabalho muito bom na direção, principalmente quando esclarece de uma forma bastante sutil que o filme é mesmo sobre as incoerências e contradições do personagem real que ele está ousando retratar. E o roteiro não tenta amenizar o egoísmo do escritor, muito pelo contrário, ousa ao mostrar todos os erros humanos de seu protagonista, nunca o colocando como uma pessoa acima do bem e do mal, ou endeusando-o. Cabe a cada um interpretar as atitudes dele como bem entender.
Dito isso, impossível falar sobre Capote sem comentar a atuação absurda que Philip Seymour Hoffman faz. Sua composição é cheia de detalhes sutis, desde os trejeitos e gestos frequentes inseridos entre as cenas, até o seu trabalho de voz excepcional. O ator simplesmente desapareceu dentro desse personagem. Sua interpretação é de uma coragem invejável - diante da dificuldade de representar para o Cinema uma pessoa tão excêntrica, por assim dizer. Chega a ser assombroso que ele tenha conseguido atingir os níveis a que chegou, provando que tinha que ser ele, um dos grandes atores de sua geração, a realizar essa façanha mesmo. Fico muito feliz que tenha sido reconhecido, porque merece, e muito. A cena do último encontro (praticamente silencioso aliás) com Perry é digna de aplausos.
O Truman Capote do título foi um escritor que ganhou fama no final dos anos 50 ao elaborar o roteiro de "BONEQUINHA DE LUXO", estrelado por Audrey Hepburn. Capote ganhou o respeito dos círculos intelectuais nova-iorquinos nessa época. O narcisismo do autor é esplendidamente interpretado pelo ganhador do Oscar, Philip Seymour Hoffman. O assassinato de quatro membros da família Clutter no estado de Kansas chamou a sua atenção. Ele pede ao seu chefe no New Yorker para ir checar "in loco" o que aconteceu naquela pacífica e pequena comunidade. Harper Lee (Catherine Keener), amiga de Capote, autora de "O SOL É PARA TODOS", é sua parceira nas investigações que deviam ser feitas. Quando Capote se encontra com a dupla de assassinos, Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Richard Hickcock (Mark Pellegrino), na prisão da cidade de Hokum, ele percebe que está diante de seu novo livro. A partir daí ele vai armazenar todas as informações possíveis para posteriormente escrever o livro. O título que Capote, o homem que conseguia lembrar 94% dos diálogos que mantinha, escolhe para o romance é "A SANGUE FRIO ". Truman Capote não escreveu o seu livro no "calor do momento". Os fatos e as entrevistas realizadas em 1961 ganharam o papel anos mais tarde, inicialmente na Espanha e depois em território norte-americano. Na verdade, Capote se via no assassino Perry Smith. Ele enxergava semelhanças na história de vida de ambos com uma pequena diferença: Capote havia saído da casa pela porta da frente, enquanto Perry pela porta dos fundos. Ambos haviam sido deixados de lado por suas mães. A mãe de Capote tinha uma vida nômade, querendo dizer que iria aportar na cidade em que um homem estivesse disposto a amá-la (ou usá-la). A mãe de Perry era chegada numa bebida. O interessante é ver como um intelectual do porte de Truman Capote se deixou iludir por essa idéia de semelhança com o assassino da família Clutter. Infâncias infelizes não foram e não são previlégio de Capote e de Perry. Talvez este seja um tema para um futuro filme. Philip Seymour Hoffman põe freios na quantidade de maneirismos e viadagens de Capote. Ele é o filme. Se você achou que Ray Charles havia encarnado em Jamie Foxx no ano passado, por certo você terá certeza que a alma de Truman Capote "baixou" em Philip Seymour Hoffman. Não podemos deixar de elogiar a direção de Bennett Miller, que retrata a solidão do Kansas de forma brilhante, mostrando quase de maneira monocromática toda a trama. O que poderia ser muito açucarado, ou muito dramático, se tornou uma obra-prima na mão de Bennett Miller. Foi uma grande injustiça o filme ter saído apenas com um Oscar nas mãos.
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