A expectativa de entrar de cabeça em um thriller visceral era alta quando decidi dar o play em Apex, mas a minha experiência no sofá acabou sendo um misto bem confuso de taquicardia e pura frustração. Fui fisgado pela promessa de um duelo psicológico sufocante escondido no meio do nada, e a energia pesada dos primeiros minutos me grudou na tela de um jeito que eu não esperava. Mas lá pela metade dessa fuga na floresta, percebi que a própria história estava tropeçando nas pedras pelo caminho, correndo desesperada sem ter um mapa nas mãos. Foi uma daquelas jornadas cansativas que testaram os limites da protagonista e, sendo bem sincero, a minha paciência com escolhas de roteiro que me fizeram revirar os olhos.
Eu fiquei absolutamente grudado no sofá com a sequência de abertura nos paredões de Troll Wall. Ver a Sasha e o Tommy (Bana) pendurados naquele abismo de gelo estabeleceu um tom de urgência brilhante desde os primeiros segundos. A tragédia ali dói. E a promessa era muito óbvia: o luto seria o motor implacável dessa mulher. Só que, depois de ser arremessada na selva australiana, percebi com uma certa tristeza que a dor psicológica virou só um acessório vazio de roteiro. O filme descarta as consequências mentais dessa escalada traumática quase de imediato. A perda gigantesca não molda as táticas de fuga dela na mata, servindo apenas como uma desculpa preguiçosa pra justificar uma viagem isolada no outro lado do mundo. Fiquei com a sensação cínica de que me venderam uma superação emocional complexa nas entrevistas, mas entregaram um drama raso e descartado no final do primeiro ato.
A entrega física da Charlize Theron é um negócio absurdo de se assistir. Ela carrega a tensão inteira do filme nas costas, muitas vezes sem abrir a boca. Eu não vi ali o velho estereótipo da heroína de ação invencível; vi uma mulher exausta, que transpira vulnerabilidade e pavor através de uma expressividade corporal quase palpável. A atuação dela gera uma empatia imediata. O problema doloroso aqui é que ela precisa segurar esse peso sozinha em um verdadeiro deserto de bons personagens de apoio. Os poucos habitantes locais que aparecem não têm alma. São peões de tabuleiro, existindo só pra morrer de um jeito visualmente agressivo e provar que o vilão não está brincando. E o Eric Bana? A aparição relâmpago dele me deixou um gosto muito amargo. Um ator desse calibre usado apenas como isca de marketing para colocar o nome no pôster, reduzido a um pretexto narrativo que some antes de você se importar com ele.
Antes da floresta se fechar em volta da trama, eu senti um frio autêntico na espinha com a construção do perigo no posto de beira de estrada. O roteiro acertou em cheio ao retratar aquela ameaça crua, velada e intimidadora que toda mulher viajando só conhece muito bem. O Taron Egerton entra brilhantemente como aquele arquétipo do "cara legal" tóxico, aquele sujeito que esconde uma natureza predatória atrás de um sorriso exageradamente gentil. E o cara manda muito bem. Ele transita do charme desarmante para a fúria em frações de segundo. Contudo, com o esticar do filme, o personagem escorrega ladeira abaixo. O excesso de piadinhas sádicas e as falas sarcásticas começaram a me tirar seriamente do sério. Num cenário que exigia terror absoluto, aquele comportamento performático e meio cartunesco quebrou totalmente a atmosfera pesada. Senti como se o vilão estivesse atuando em uma comédia ácida e a protagonista sofrendo num thriller sujo. As duas frequências simplesmente não bateram.
O Baltasar Kormákur sabe criar isolamento, e eu dou o braço a torcer por isso. A direção entende a necessidade do silêncio, deixando a gente tenso imaginando onde o perseguidor está escondido em vez de explodir coisas a todo instante. Mas, assim que a adrenalina inicial baixou e o segundo ato começou, minha paciência foi literalmente pro ralo. O ritmo do filme empaca de uma forma quase inexplicável. Passei minutos infinitos vendo a Sasha vagar a esmo por paisagens vazias ou ficar agachada atrás de troncos. Essa lentidão esfriou completamente o engajamento que eu tinha criado. E a obediência cega aos clichês é revoltante. A cartilha do suspense de sobrevivência é seguida com tamanha exatidão que eu me peguei adivinhando de qual moita o pulo do gato iria sair. Faltou coragem pra subverter a expectativa do público.
Se teve algo que me segurou acordado nas barrigas narrativas foi o ambiente em si. A geografia não facilita. Não estamos falando só de um assassino no seu encalço; estamos lidando com corredeiras letais, pedras que rasgam a pele e um frio cortante que suga a sanidade da personagem. Essa dupla camada de ameaça funcionou de forma fantástica pra mim. Observar a Sasha ser obrigada a derrotar o próprio bioma australiano para só depois se preocupar com a lâmina do Ben deu uma carga de sobrevivência muito autêntica à fita. O filme ganha seus melhores pontos quando trata a floresta não como um papel de parede de luxo, mas como uma força hostil, imprevisível e viva.
Eu estava imerso de verdade na fotografia claustrofóbica. Aquela câmera invasiva, focada no suor frio da testa da Theron, cria uma urgência absurda. A captura das locações reais da Austrália impõe um respeito visual gigantesco. Aí os efeitos digitais entraram em ação e rasgaram a minha imersão em pedaços. Nos trechos envolvendo a queda nas corredeiras ou as lutas nos penhascos altíssimos, o fundo de tela verde salta aos olhos de uma maneira constrangedora. A colisão desse CGI meio plastificado com a lama real e a atuação crua dos atores achata completamente a sensação de perigo. Quando percebi a água falsa pixelada borrando no fundo do cenário, o meu medo da protagonista se afogar desapareceu na mesma hora. Faltou um polimento urgente na pós-produção.
Neste quesito, bato palmas sem pensar duas vezes. O design de som é a verdadeira estrela silenciosa desse filme, carregando a paranoia nas costas com maestria. A decisão de não socar uma trilha orquestral dramática o tempo todo foi um alívio. Me peguei na ponta do sofá, segurando a respiração, tentando isolar o som de um galho quebrando ou de folhas sendo amassadas no meio do escuro. A amplificação agressiva do zumbido das moscas e do barulho estridente da água violenta incomodou no bom sentido, aumentando meu próprio desconforto na sala. Quando a música finalmente resolve aparecer nas perseguições diretas, ela entra rasgando com batidas quase tribais que fazem o batimento cardíaco da gente ir junto.
Adoro lutas feias. Aquelas brigas instintivas de sobrevivência onde não há glamour, apenas o desespero de continuar respirando. O filme acerta no tom desajeitado dos embates. O problema colossal, no entanto, é a forma como isso foi filmado e costurado. A montagem resolveu adotar o clichê da câmera tremida e dos cortes hiperativos. Nas sequências à noite, aquilo vira um borrão de lama e borrão de roupas onde fica humanamente impossível decifrar quem está batendo ou apanhando. Além dessa alienação visual, o roteiro testa a inteligência com a tal suspensão de descrença. A vulnerabilidade inicial da Sasha evapora num piscar de olhos. Ela sofre quedas que transformariam ossos em pó, solta um gemido de dor e volta a correr mata adentro numa velocidade olímpica. Querer o choque estético do ferimento feio, mas recusar as consequências motoras dessa mesma dor, acabou matando a veracidade do conflito.
Chegou um instante no último ato em que a escrita complacente realmente me ofendeu. A dinâmica tensa de gato e rato perde qualquer cabimento quando as regras do mapa simplesmente deixam de existir. A Sasha é engolida por uma correnteza rápida durante minutos, despenca longe, e como que por passe de mágica o vilão aparece nas costas dela logo em seguida, rindo e sem um arranhão. A distância entre os dois muda de acordo com a necessidade de ter um susto novo na tela. Essa dependência pesada de um "teletransporte" narrativo destrói de vez a noção tática do duelo. Eu perdi a vontade de pensar nas estratégias de fuga porque sabia que, de um jeito ou de outro, o roteiro faria o vilão quebrar as leis da física para alcançar a presa.
Preciso desabafar sobre como e onde consumi essa obra. Fica absurdamente nítido que a escala da montanha, a ambição da edição de som e a vastidão daquele isolamento exigiam a sala escura e a tela monstruosa de um cinema. Assistir a tudo isso espremido num formato caseiro, lutando contra as distrações da sala de estar, castrou muito do impacto. A opressão que o diretor tentou criar simplesmente não conseguiu vazar de dentro da minha televisão. A estratégia de lançar algo com esse escopo diretamente pro streaming acabou sabotando a própria essência enclausurante que o projeto queria transmitir.
O desfecho guardado pro final conseguiu a proeza de ser um balde de água gelada. Depois de eu passar quase duas horas acumulando raiva pelas injustiças da perseguição e aguardando uma catarse que lavasse a alma, as coisas são concluídas de maneira pateticamente banal. O confronto termina num estalo brusco, trocando um ápice sangrento ou emocional por um fechamento preguiçoso de protocolo. A jornada psicológica e as feridas do trauma ficaram totalmente jogadas para escanteio, encerrando os letreiros com um sentimento pesado de "foi só isso?".
Encarar Apex exige uma dose altíssima de paciência. É um projeto fraturado que sabota a si próprio ao negligenciar um luto de potencial riquíssimo e apelar para atalhos de roteiro que insultam a lógica. Fiquei muito incomodado com a confusão da câmera nas lutas noturnas e com aquele fundo falso do CGI estourando na tela, além de um clímax que só me deixou com cara de tacho. Porém, não posso negar que em determinados trechos o coração acelerou. A presença magnética de Charlize Theron rastejando no limite das forças é espetacular, e a arquitetura sonora da selva entrega a tensão que a história perde de vista. Se você estiver num dia exausto, apenas em busca de um entretenimento sujo e direto sem pensar demais nos detalhes lógicos, a adrenalina momentânea compensa. Vá sem esperar uma revolução do gênero.