A Empregada
Críticas AdoroCinema
2,5
Regular
A Empregada

Amanda Seyfried é o ponto alto de um mistério que até diverte, mas não tem muito a oferecer.

por Aline Pereira

“Nada é o que parece nesta família” ou “esta família perfeita esconde segredos obscuros” são linhas de sinopses que já lemos incontáveis vezes na descrição de filmes e séries de suspense ao longo dos anos – e a ideia de desmantelar uma perfeição aparente continua sendo uma das grandes frentes do gênero. Se somarmos a isso personagens abastados, triângulos amorosos e uma dose de picância e perturbação, conseguimos explicar o sucesso de A Empregada, livro da autora best-seller Freida McFadden publicado originalmente em 2023 que ganhou adaptação para as telas com Amanda Seyfried (Mamma Mia!) e Sydney Sweeney (Euphoria) nos papéis principais.

A Empregada começa nos apresentando a Nina (Amanda Seyfried), uma dona de casa – uma baita casa, é claro – que está em busca de uma babá e faz-tudo para lidar com todos os afazeres domésticos e cuidar da filha criança. É quando seu caminho cruza com o de Millie (Sydney Sweeney), uma jovem que carrega um passado misterioso e turbulento, desesperada para encontrar qualquer oportunidade de se reerguer e recomeçar a vida.

Não demora muito até que o trabalho dos sonhos se torne um pesadelo: Nina é uma patroa extremamente abusiva, mentalmente desequilibrada e que constantemente chantageia e manipula Millie. A empregada vai levando a situação, não só pelo medo de perder o emprego, mas porque começa a desenvolver sentimentos pelo marido de Nina, Andrew (Brandon Sklenar) – lindo, atencioso, bom pai, milionário e muito, mas muito paciente com a “personalidade difícil” da esposa. A partir daí, então, acompanhamos o desenrolar deste triângulo que, lógico, vai revelar elementos ocultos.

“Feliz no simples”: É assim que A Empregada entretém

Paris Filmes

É claro que, para não estragar a experiência de assistir, não vamos discutir aqui sobre as reviravoltas de A Empregada. Então, nesse aspecto, vou me limitar a escrever que quando elas aconteceram fiquei com a sensação de que já eram esperadas e que, se o filme tivesse sido lançado alguns anos antes, aí sim, poderiam ser mais surpreendentes. Assim, quem for assistir ao filme esperando algum tipo de “explosão de cabeça” vai se frustrar.

Tudo é muito plástico em A Empregada. Tudo parece suspeito desde o início e o filme não parece ter qualquer comprometimento com algum viés um pouco mais realista. Digo isso porque o que rola aqui é bastante teatral: do comportamento dos personagens aos cenários impecáveis, mesmo em meio ao caos. Ainda assim, há um certo carisma na simplicidade da construção desta história que garante, pelo menos, o entretenimento. Deixa de ser sobre desvendar os mistérios (acredito, como mencionei, que muitas pessoas chegarão à conclusão correta antes do fim) e sobre se desligar e aproveitar um thriller com pequenos absurdos e muitos clichês. Não vai mudar sua vida, mas é divertido, sim.

Com um roteiro marcado por diálogos exagerados que levam os protagonistas a situações sem muita conexão, faz sentido que A Empregada venha das mãos de Paul Feig, o mesmo diretor de Um Pequeno Favor, suspense com Blake Lively e Anna Kendrick que segue uma linha bem semelhante – uma relação estranha entre duas mulheres em que há pouco sentido e pouca preocupação com qualquer tipo de refinamento narrativo, mas que, ainda assim, conta com uma habilidade considerável de cativar.

Amanda Seyfried é o ponto alto de A Empregada

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Com uma carreira diversificada entre musicais, comédias românticas e séries de televisão, Amanda Seyfried é sempre bem-vinda nas produções e em meio a atuações sem muitas nuances em A Empregada, é ela quem se destaca, sem sombra de dúvidas. O roteiro melodramático de sua personagem não é um problema e se o exagero é o que foi pedido, é isso o que Amanda entregará. E entregará bem.

A conturbada Nina é quem conduz os acontecimentos do suspense e é ela também quem carrega as principais mensagens que o longa quer nos propor, especialmente dentro do contexto da pressão – real – imposta às mulheres para desempenharem perfeitamente seus papéis como mães, esposas e donas de casa enquanto se mantém esteticamente joviais, desejáveis, decididas, mas submissas. Uma lista de exigências que se torna insustentável e, no caso da personagem, uma bomba prestes a explodir.

Amanda Seyfried tem todas essas sutilezas nela: da aparência frágil ao olhar profundo que, mais adiante, explicam as motivações de sua personagem. E se o longa tem esse poder de manter o interesse mesmo com uma trama sem grandes impactos, muito se deve ao magnetismo da protagonista.

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Sydney Sweeney, por outro lado, é… Ela mesma. Confesso que tive dificuldades em me deixar convencer pelo papel de garota-problema-enigmática que ela interpreta porque a vejo como uma atriz com pouco alcance dramático. Ok em produções como Euphoria e Todos Menos Você, mas em A Empregada senti falta de uma presença mais robusta.

A personagem Millie tem momentos distintos que trazem ao filme dilemas muito diferentes daqueles vivido por Nina e, juntas, as duas personagens e a dinâmica entre elas atravessadas pelo marido, expõe estereótipos comuns de competição e rivalidade que, no fim das contas, não servem para nada mais do que dividir as mulheres e conceder ainda mais poder aos homens. Os debates acerca disso não são propriamente discutidos no longa e, embora as ideias estejam lá, em alguma camada, há uma superficialidade no tratamento dos temas que as fazem passar batidas.

No fim, a sensação é de que os aspectos mais sutis que tornaram A Empregada um fenômeno na literatura talvez tenha ficado para trás em uma adaptação que vai te fazer prestar atenção na história até o final só pela curiosidade de saber, como já vimos em tantas sinopses, quais são os segredos obscuros da vez.

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