O Fim da Rua não hesita em assustar criancinhas e nem de usar Anne Hathaway como sua maior arma
por Júlia BarbosaJurassic Park (1993) é um filme tão icônico que é impossível desassociar qualquer evento cinematográfico envolvendo dinossauros de seu legado. Felizmente, David Robert Mitchell teve muita consciência disso ao escrever O Fim Da Rua e abraçou os aspectos que tornam a aventura de Steven Spielberg uma experiência cinematográfica incomparável: autoralidade, diversão e risco.
Mitchell guardou a ideia de um bairro americano engolido por criaturas pré-históricas na gaveta por bastante tempo enquanto se consolidava como um expoente no cinema de terror. Então, em parceria com J.J. Abrams, veterano da ficção científica, que o diretor levou a criativa que demonstrou em Corrente do Mal (2014) e O Mistério de Silver Lake (2018) da sessão da meia-noite para o domingo em família.
Warner Bros. Pictures
Ao invés de enviar pesquisadores ou soldados treinados para explorar a selva, tal como Jurassic World, The End of Oak Street faz o caminho inverso. Desta vez, pessoas comuns precisam lutar pela sobrevivência com os recursos que têm na dispensa enquanto dinossauros destroem casas de cerca branca, parquinhos e carros. Então, o primeiro ato começa mais íntimo e dedica-se a apresentar os conflitos pessoais dos personagens. Assim, o público sabe desde o início pelo o que motiva e o que bloqueia cada integrante da Família Platt quando o filme ganha "giganteza".
Achei realmente cuidadoso como o roteiro se propõe a reforçar a ideia de que, na vida real, os problemas antigos não desaparecem quando novos desafios surgem e o mesmo acontece na ficção científica. As fissuras nas relações familiares continuam ressurgindo em uma situação crítica e os traços de personalidade de cada um são intensificados com a velocidade das cenas de ação.
Enquanto Gregg (Ewan McGregor) se esforça para manter um semblante otimista, Denise (Anne Hathaway) não esconde que teme pela segurança deles. As crianças, Brian (Christian Convery) e Audrey (Maisy Stella), tornam-se espelhos dos pais. O menino insiste para que eles procurem pelo cachorro, Starbuck, já a primogênita elabora teorias baseadas em física quântica que possam explicar como apenas o quarteirão deles foi transportado para a Pré-História e, mais importante, como eles podem voltar para o tempo deles.
Já nas primeiras cenas, Denise estabelece que é uma pessoa prática ao resolver rapidamente um inconveniente com o vizinho e também honesta ao dizer que está insatisfeita com o casamento durante uma discussão Gregg sobre seus horários alternativos de trabalho, algo que seus filhos notam. Ela é, sem dúvidas, o centro do filme e a personagem mais completa dele graças à força que Anne Hathaway confere à ela e à cautela na construção de seu arco dramático.
Warner Bros. Pictures
Notei isso assim que o primeiro dinossauro faz uma presa humana e Denise não hesita em pegar uma espingarda do chão e alvejar contra ele. Por um momento, você se questiona como que ela do nada virou uma atiradora e, algumas cenas depois, fotos emolduradas na parede da casa a mostram pronta para caçar ainda na adolescência.
São muitos os momentos que a atriz joga com as facetas da personagem, traduzindo uma verdadeira heroína de ação e uma mulher muito palpável simultaneamente. Denise e Anne sabem que as circunstâncias em que eles se encontram não permitem atalhos, então o medo e a raiva não podem ficar escondidos. Para quem assiste, ver tal consciência ser traduzida pela atriz de A Odisseia e O Diabo Veste Prada 2 é magnético, fazendo com que você torça por ela.
Warner Bros. Pictures
Talvez seja maldoso da minha parte, mas quando percebi que um pai abandonou a sala com uma menininha que chorava no colo, encarei isso como um bom sinal.
Nos anos 90 e 2000, os filmes não tinham medo de assustar as crianças, e títulos como Homens de Preto (1997), A Múmia (1999) e até o próprio Jurassic Park são provas disso. Com o desejo de agradar cada vez mais comercialmente, os estúdios foram gradualmente pasteurizando gosto do público infantil, subestimando-os como espectadores e ignorando os adultos que os acompanham nas sessões de cinema. Então, O Fim da Rua vai na contramão quando não esconde as mortes e a destruição provocadas pelos maiores predadores que já pisaram na Terra.
É no "gore" e na monstruosidade dos dinossauros e humanos que David Robert Mitchell também esbanja referências e expertise no terror. Usar a trilha sonora e jogos de câmera para revelar aos poucos que as criaturas estão prestes a dar o bote é uma estrutura clássica, mas infalível quando bem feita, deixando quem assiste agarrando os dedos no braço da poltrona. Também adianto que, entre os jumpscares divertidos há um que arrancou gritos dos adultos e das crianças da plateia e, que além de ser um susto, provoca uma virada crucial na trama.
Como mencionei, tais recursos quando bem aproveitados contribuem demais para a experiência cinematográfica e tiram o espectador de um lugar inerte e passe a ser reativo. Entretanto, o diretor acabou pesando a mão ao querer incluir ferramentas demais em um enredo que brilha mais na simplicidade. Um exemplo disso é o uso do dióptro dividido — técnica de fotografia que revela dois pontos de foco na tela —, onde referenciar Spielberg e Brian de Palma em uma cena simples de diálogo acaba sendo um exagero que não agrega em muita coisa e tampouco combina com o tom do filme.
Warner Bros. Pictures
Nesses últimos anos, principalmente quando analisamos as produções lançadas para um público familiar, há uma reciclagem cansativa de fórmulas que os estúdios sabem que funcionam comercialmente, vide os inúmeros remakes em live-action da Disney. E, ainda que o longa produzido por J.J. Abrams também esteja no guarda-chuva dos blockbusters e aproveite temas e formatos que não são inéditos, ele tem um frescor criativo.
Essa sensação vem da mudança de contexto e cenário que o subgênero jurássico costuma residir e, também de outras escolhas que solidificam a autoralidade dele. O visual cientificamente preciso dos dinossauros com penas, pelos e comportamentos animais é uma delas, e o ponto de vista mais caseiro é outra, a estética dos anos oitenta nos subúrbios estadunidenses é outra...E é nesse acúmulo de notas que o sabor do filme vai ficando mais interessante e menos plástico.
The End of the Oak Street tem o potencial de conquistar bilheteria na base da técnica mais ancestral: o boca-a-boca. Eu mesma entrei na exibição dele em pré-estreia com expectativas baixíssimas e saí muito satisfeita ao acender das luzes simplesmente porque eu me diverti muito e me surpreendi diversas vezes ao longo do filme. Acredito que isso deve acontecer com muitos pais e filhos nas próximas semanas.