Cavalo Selvagem Nove
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Cavalo Selvagem Nove

Mistura de comédia ácida e trama política, Cavalo Selvagem Nove entrega atuação impressionante de John Malkovich

por Bruno Botelho dos Santos

Ao longo deste século, o roteirista e diretor britânico Martin McDonagh desenvolveu um tipo muito particular de fazer filmes, misturando humor ácido, violência e reflexões existencialistas. Desde sua estreia no curta-metragem O Revólver de Seis Tiros (2004), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live-Action, ele chama atenção da crítica e se consolidou como um dos nomes mais originais do cinema atual pelos longas-metragens Na Mira do Chefe (2008), Sete Psicopatas e um Shih Tzu (2012), Três Anúncios para um Crime (2017) e Os Banshees de Inisherin (2022).

É nesse cenário que Cavalo Selvagem Nove (2026), filme estrelado por John Malkovich e Sam Rockwell, surge como um capítulo interessante em sua carreira. As marcas registradas de Martin McDonagh estão aqui e bem estabelecidas, mas elas tomam nova forma em seu “trabalho mais político”, como ele próprio revelou em entrevista à Empire.

Qual é a história de Cavalo Selvagem Nove?

Searchlight Pictures

Cavalo Selvagem Nove se passa pouco tempo antes do golpe de Pinochet tomar o governo do Chile em 1973, quando os detetives da CIA Chris (John Malkovich) e Lee (Sam Rockwell) são transferidos de Santiago para a Ilha de Páscoa por seu chefe MJ (Steve Buscemi). Entre as icônicas estátuas do lugar, os dois parceiros de longa data enfrentam seus passados sombrios e conspirações do presente. Chris, porém, pode colocar tudo a perder quando se envolve com duas estudantes rebeldes (interpretadas por Mariana di Girolamo e Ailín Salas).

Cavalo Selvagem Nove abusa do humor e desconforto para criticar intervenções dos Estados Unidos

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Desde os primeiros minutos, Cavalo Selvagem Nove é incisivo em seu posicionamento crítico às intervenções políticas e militares dos Estados Unidos em outros países, misturando trama fictícia com contexto histórico real do Chile que, após um golpe militar, enfrentou uma das ditaduras militares mais brutais e sangrentas da América Latina.

Martin McDonagh abusa do humor ácido e sombrio a partir das ações da CIA. Existe todo o clima de espionagem e tensão política, mas o filme investe fortemente no tom sarcástico pela maneira que os protagonistas Chris e Lee comentam sobre crimes, assassinatos e também horrores que os chilenos estavam prestes a enfrentar com a maior tranquilidade do mundo, como se fosse mais um dia normal de trabalho.

É propositalmente engraçado e, ao mesmo tempo, desconfortável. McDonagh está deixando claro e brincando com a moralidade e atitudes problemáticas desses personagens – e eles próprios têm consciência disso. Mas é essa ironia que também abre espaço para reflexões existencialistas, principalmente pelo agente interpretado por John Malkovich.

Violência e melancolia invadem as paisagens deslumbrantes do Chile

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Os filmes de Martin McDonagh costumam navegar bastante pela complexidade moral dos personagens e, em Cavalo Selvagem Nove, o cineasta está particularmente interessado nas reflexões de Chris sobre sua vida e passado sombrio enquanto é acometido por uma doença que lhe faz perder a memória.

A natureza e as paisagens deslumbrantes de Rapa Nui, conhecida popularmente como Ilha de Páscoa, influenciam diretamente essa jornada melancólica de Chris. O roteiro propõe uma humanização que pode ser bem questionável, considerando o contexto político que o longa aborda, mas também coloca essa possibilidade de redenção em crise conforme ele começa a resgatar suas lembranças e se envolve com estudantes rebeldes, entrando em conflito com seu parceiro Lee e também se tornando uma ameaça para a operação da CIA.

Os cenários sagrados de Rapa Nui, que ganham vida própria na cinematografia de Ben Davis, sempre parecem violados por esses homens com sangue nas mãos. E o clima de tensão, paranoia e conspiração cresce progressivamente na segunda parte da narrativa, culminando na violência gráfica que algo que estamos acostumados nas obras do McDonagh.

John Malkovich entrega uma das melhores atuações de sua carreira

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Indicado duas vezes ao Oscar, John Malkovich é uma lenda de Hollywood e entrega uma das suas atuações mais complexas em Cavalo Selvagem Nove – que deve colocá-lo como figurinha carimbada na temporada de premiações. O ator consegue dar vida perfeitamente a essa figura sarcástica, detestável e com atitudes nefastas, mas também explora as vulnerabilidades psicológicas dele. Essas nuances são essenciais para que a gente se interesse em acompanhar o personagem na telona.

Isso funciona em grande parte pela dupla que ele forma com Sam Rockwell, que já havia trabalhado com Martin McDonagh em Sete Psicopatas e um Shih Tzu e Três Anúncios para um Crime. A dinâmica e contraste entre os dois é hilária, com diálogos repletos de palavrões e absurdos que sustentam boa parte da veia cômica da narrativa, mas também proporcionam momentos introspectivos que conversam sobre amizade.

Essa relação é complementada por coadjuvantes que roubam a cena com seus personagens excêntricos: Steve Buscemi, que rende alguns dos momentos mais inesperados e sombrios como MJ, chefe da CIA; e Parker Posey em curta participação como a esposa de Lee, Margie, mas suficiente para arrancar risadas.

Vale a pena assistir Cavalo Selvagem Nove?

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É interessante que a memória seja tão importante na narrativa de Cavalo Selvagem Nove. Ela, que é tão imprescindível em países que passaram por ditaduras como uma forma de acertar as contas com o passado e evitar que ele se repita. É por isso que as lembranças de Chris na produção se tornam tão perigosas para os interesses da CIA e Estados Unidos na trama. Eles precisam que todos se esqueçam do que realmente aconteceu, dos crimes, das vítimas… que a justiça não seja feita.

Martin McDonagh não tem medo de colocar o dedo na ferida ao criticar as intervenções dos Estados Unidos e lembrar os horrores da ditadura militar no Chile, ao mesmo tempo que não perde sua veia na comédia ácida para conduzir essa história, cheia de momentos engraçados, absurdos e reflexivos. É um filme que consegue ser divertido, melancólico e sombrio, liderado por uma atuação impressionante de John Malkovich.

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