A Hora do Mal
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
A Hora do Mal

Com estrelas de Marvel e Star Wars, A Hora do Mal é um filme de terror ousado e assustador que surpreende até o último minuto

por Bruno Botelho dos Santos

O mistério é um elemento importante em vários filmes de terror e suspense, uma ferramenta usada para causar medo e tensão no público. Apesar de muitas vezes ficarmos preocupados em caçar pistas, quase virando verdadeiros personagens de Scooby-Doo, o mais interessante e assustador não está na resolução em si ou compreensão da trama, mas nos efeitos e no impacto que são deixados pelo caminho. Como diz Susan Sontag em seu clássico ensaio "Contra a interpretação": "Nossa cultura se baseia no excesso, na superprodução; o resultado é uma perda constante no grau de agudeza de nossa experiência sensorial".

Isso é algo que Zach Cregger, roteirista e diretor do surpreendente Noites Brutais (2022), compreende muito bem com seu novo filme, A Hora do Mal (2025).

A divulgação de A Hora do Mal chamou atenção pelo desaparecimento, sem explicação, de 17 crianças ao mesmo tempo. Mas Cregger é inteligente para ir além das expectativas, tanto em sua história, quanto na forma de contá-la.

Qual é a história de A Hora do Mal?

Warner Bros. Pictures

A Hora do Mal acompanha o desaparecimento de 17 crianças de uma mesma classe que, misteriosamente e ao mesmo tempo, fogem de suas casas de madrugada, restando apenas uma para trás. Sem nenhum sinal de arrombamento ou sequestro, a cidade inteira procura respostas sobre o que pode ter acontecido naquela noite. Quem ou o que está por trás deste estranho mistério? Enquanto os pais lutam para entender o que aconteceu, as autoridades buscam por informações pela pequena cidade.

A Hora do Mal surpreende com quebra-cabeça ousado, maluco e assustador

Warner Bros. Pictures

Em A Hora do Mal, o roteiro de Zach Cregger é focado em pessoas que têm alguma relação com o mistério, então entramos em suas vidas e entendemos como esse desaparecimento as impacta de forma destrutiva, além de agravar questões que estavam escondidas. Enquanto assistia, pensei bastante em The Leftovers, onde 2% da população mundial some sem explicação e acompanhamos na série as dores daquelas pessoas que permaneceram, um luto sem fim em busca de respostas.

Noites Brutais já havia apostado em uma narrativa não convencional que surpreendeu os fãs de terror, mas A Hora do Mal é ainda mais ambicioso em sua proposta, dividido em sete capítulos que são centrados em perspectivas de diferentes protagonistas, como é o caso da professora Justine Gandy (Julia Garner), do pai de uma criança desaparecida Archer Graff (Josh Brolin) e do policial Paul (Alden Ehrenreich).

Este é um daqueles filmes que quanto menos você souber da trama, melhor para sua experiência. Cregger brinca de quebra-cabeça com as peças da história sendo montadas a cada capítulo, enquanto os diferentes pontos de vista se complementam.

O mais interessante é como essa estrutura narrativa épica – que Zach Cregger admitiu ter se inspirado no clássico Magnólia (1999), de Paul Thomas Anderson – é usada em favor do suspense e terror. Ela nos faz refém de uma tensão crescente ao mesmo tempo que temos descobertas (e abrindo outros questionamentos) pela entrada de um novo protagonista, mas aproveita para surpreender e subverter nossas expectativas a todo instante em uma jornada maluca, imprevisível e assustadora.

O terror do luto e do inexplicável em A Hora do Mal

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O maior temor da humanidade sempre esteve naquilo que não entendemos ou aceitamos, então o desaparecimento das crianças vira um prato cheio para Zach Cregger construir uma espécie de mal-estar social nesta comunidade e seus personagens, especialmente na maneira como eles lidam com essa tragédia.

O filme abre com uma narração de uma criança sobre o caso ao estilo de conto de fadas e somos jogados nas repercussões desse evento na sociedade conforme o horror parece refletir a própria instabilidade dos protagonistas. O diretor começa com uma construção atmosférica e desconfortável, que conversa bastante com cinema de terror de trauma atual feito por nomes como Ari Aster, enquanto caímos em uma espiral de brutalidade que parte de sustos pontuais e se torna mais visceral e fantástico.

É um passeio selvagem e sinistro que funciona bastante pelo humor macabro de Cregger proveniente de seu passado na comédia. Sem entrar em spoilers da trama, a personagem de Amy Madigan não vai sair da sua cabeça tão cedo.

A Hora do Mal entrega respostas um tanto surpreendentes, mas não deve agradar a todos por causa de sua ousadia – e possíveis expectativas criadas ao longo da produção. Felizmente, o filme não é autoexplicativo demais, priorizando a experiência como um todo do que se apegando a soluções. No final das contas, o mistério é resolvido, mas passamos por um caminho sem volta e as marcas ainda permanecem. Não apenas nos protagonistas que acompanhamos, mas também em nós como público.

Vale a pena assistir A Hora do Mal?

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O roteirista e diretor Zach Cregger já havia surpreendido com Noites Brutais, mas aumenta a aposta em A Hora do Mal e se consolida como um dos nomes mais criativos do terror atual.

Ele usa o mistério do desaparecimento das crianças para brincar e manipular expectativas de forma ousada e macabra, enquanto se aprofunda na destruição dos seus personagens em busca de respostas. É satisfatório que Cregger nunca deixe os temas ultrapassarem a experiência do longa-metragem como um todo, focado em proporcionar uma jornada bizarra, inesperada e horripilante por diferentes perspectivas.

A Hora do Mal é um exame de nossa sociedade e o que acontece quando perdemos o controle. As "Armas" – tradução do título original "Weapons" – são aqueles problemas enraizados e que nos ferem coletivamente, sendo que as maiores vítimas são justamente as crianças. Estamos todos marcados e reféns.

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