Assim como um projeto que é muito próximo de seu coração (Gangues de Nova York), a adaptação de Silêncio, livro escrito por Shusaku Endo, foi um dos projetos que Martin Scorsese mais sonhou em trazer para a grande tela. O livro se passa no Japão do século XVI, quando a religião católica foi proibida dentro do território japonês, e aqueles que ainda teimavam em praticá-la eram perseguidos pelos inquisidores do país.
A história está centrada na figura de dois jovens missionários portugueses – os padres Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Garupe (Adam Driver) – que partem rumo ao Japão para descobrir o paradeiro de um dos seus mentores, Cristóvão Ferreira (Liam Neeson). Ferreira e Garupe tomam essa decisão pois não acreditam que aquele que mais os motivaram na prática da fé cristã tenha apostatado (renegado a fé em Deus e em tudo aquilo que Jesus Cristo representa).
Desta maneira, Silêncio é a jornada (clandestina) destes dois jovens, em meio a um Japão perdido e que encontra na repressão à fé cristã uma maneira de manter seu país livre das influências externas e mais fiel à sua cultura e tradição. Neste sentido, as presenças de Rodrigues e Garupe significam a resistência de uma instituição milenar e a oportunidade de oferecer conforto àqueles que ainda creem na fé cristã.
A maior força de Silêncio encontra-se na maneira sutil pela qual Scorsese retrata o dilema moral que aflige Sebastião Rodrigues. Confrontado com o sofrimento e o sacrifício que seus fiéis enfrentam, na medida em que são perseguidos, o que mais aflige o jovem padre é o silêncio de Deus diante daquelas situações e diante das inúmeras preces que ele faz, pedindo orientações, auxílio, uma luz diante de tanta sombra e escuridão. Do alto de sua juventude, no entanto, e aqui está a beleza da trajetória de autodescoberta e amadurecimento vivida pela personagem, está o aprendizado de que o silêncio, sim, para aqueles que sabem usá-lo e interpretá-lo, é uma prece, uma resposta, um auxílio, uma luz, é amor.
Dirigido com maestria por Martin Scorsese, em meio às paisagens de países orientais como o Taiwan, Silêncio é uma obra que nos ensina muito sobre fé, sobre orgulho, sobre disciplina, sobre traição, sobre perdão, sobre sermos fortes (mesmo diante dos momentos de maior fraqueza) e sobre aprender que, às vezes, sucumbir não é ruim – e sim, uma maneira de salvação. Uma pena que o filme não tenha recebido o reconhecimento que merecia. Mas, com certeza, será uma obra que reverberará por muito tempo.