Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out

Daniel Craig e Rian Johnson colocam holofotes no brilhante Josh O'Connor em comédia sombria que vai da fé à culpa cristã

por Diego Souza Carlos

O gênero de whodunit - ou "quem matou?" - sempre ofereceu oportunidades a diretores e escritores de abordarem conflitos sociais. Os mistérios que fazem o público se esforçar para descobrir a identidade do assassino podem funcionar como veículos para se discutir questões morais e psicológicas relevantes. Quem consegue fazer o bom uso dessa estrutura, e ainda divertir a audiência com facilidade, é Rian Johnson, que retorna ao catálogo da Netflix com um novo capítulo da franquia Knives Out.

Vivo ou Morto é, com a licença do trocadilho, um despertar indispensável da franquia

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No longa, Benoit Blanc (Daniel Craig) retorna para seu caso mais sombrio. Após um assassinato súbito e aparentemente impossível abalar uma pequena cidade, a chefe de polícia local (Mila Kunis) une forças com o renomado detetive para desvendar um mistério que desafia toda a lógica. Embora Rian Johnson não fique preso ao local ou à região, como já disse em entrevista ao AdoroCinema, é sempre revigorante ver um novo elenco e novos cenários brotarem a cada capítulo.

Depois de fazer a audiência mergulhar nas paisagens iluminadas de um paraíso grego, o cineasta se recolhe à igreja de uma cidadezinha norte-americana para investigar as grandes hipocrisias e complexidades deste mundo em que vivemos hoje. Assim como criou microcosmos da sociedade em outras ocasiões, ele brinca com arquétipos estabelecidos para enganar - no melhor sentido da palavra, se é que há um - a audiência.

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O diretor mais polêmico da história recente de Star Wars demonstra que está mais do que confortável em construir uma jornada cheia de reviravoltas com um refinamento de realizadores maduros. A direção tão dinâmica quanto artística oferece um frescor ao gênero: o cineasta coreografa movimentos do elenco com graça, brinca com as arquiteturas clássicas e urbanas com ângulos não convencionais, usa o melhor da iluminação ao contrastar luz e trevas em momentos estratégicos e surfa com estilo pela fórmula do whodunit.

Pensando apenas neste aspecto técnico, Vivo ou Morto já se torna uma experiência imersiva em que o entretenimento não está apenas em descobrir o que realmente houve, mas em ver a dança destes atores guiados por uma direção confiante.

Daniel Craig atinge o melhor de Benoit Blanc sem ofuscar a grande estrela de Vivo ou Morto

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Daniel Craig sempre foi o protagonista da franquia como o astuto e carismático detetive Benoit Blanc, mas a cena aqui é gentilmente compartilhada com Josh O'Connor no papel de um jovem padre que tem um passado controverso e misterioso. O veterano brilha mais uma vez como o icônico investigador, mas parece estar disposto a adentrar na comunidade do monsenhor Jefferson Wicks (Josh Brolin) com uma presença contida em comparação aos filmes anteriores.

O guia espiritual dessa região reforça os ares nefastos da narrativa ao representar alguns líderes religiosos reais que cativam fiéis por sua visão nada ortodoxa sobre o cristianismo. Trata-se praticamente de um culto regado a grandes absurdos sobre a forma de se conduzir a vida com uma grande figura central. Espere ouvir discursos inflamados sobre como a "cultura woke" está acabando com as famílias, falas retrógradas sobre o papel de uma mulher na comunidade ou citações nada convencionais sobre ditaduras.

Encarnado por um Josh Brolin vibrante, que só não é caricato dentro de discursos exagerados por sua aptidão como ator, o personagem vai, aos poucos, provocando o novo padre (e o público) enquanto se torna um desenho completo de figuras carimbadas da nossa sociedade. É difícil não ultrapassar algumas linhas sem dar spoilers, mas atente-se que ele vai trazer diversas pessoas da vida real à mente de um público mais crítico a certos discursos equivocados. É um lembrete de que a realidade está tomada por vozes que deveriam promover a comunhão e o zelo pelo outro, mas usam o palanque para esbravejar preconceitos e desinformações pela gana de poder.

Sem ser piegas, Knives Out 3 testa a fé em um mundo cheio de culpa

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Há muitos elementos que podem levar Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out a ser considerado como uma das melhores adições do catálogo da Netflix. Ainda que não seja um filme isento de falhas, com conveniências e certas extensões desnecessárias na trama ou o curto tempo de algumas estrelas, o filme consegue o feito de, em uma era tomada pelo desejo majoritário dos estúdios diante de qualquer obra, ter a assinatura de Johnson impressa do início ao fim.

Ao colocar a fé dos indivíduos em cheque com coadjuvantes curiosos, que vão de uma bilionária com problemas de saúde a uma típica beata deste tipo de história, o elenco estelar conquista a audiência mesmo com pouco tempo de tela em comparação ao núcleo principal. Enquanto assistimos aos absurdos de uma catedral cheia de hipocrisia, acompanhamos os dilemas do padre interpretado por Josh O’Connor: afinal, ainda há espaço para ter fé neste mundo? O personagem, que parte de um passado falho, também desafia o público quanto às ideias de perdão, recomeço e culpa - este último, um desafiador legado da religiosidade que ganha contornos interessantes durante a produção.

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Em um emaranhado de histórias, por vezes truncadas, por vezes surpreendentes, Vivo ou Morto entrega homenagens a diversas obras literárias de whodunit enquanto trilha o próprio caminho. Coloca Benoit em dúvida com as próprias certezas, deixa mais de uma pulga atrás da orelha de quem assiste e, a partir da ideia do que pode ser divino e do poder da crença para o bem e para o mal, fica acima da média de qualquer outra produção recente do gênero.

Não é possível deixar de citar o conforto angustiante de Kerry Washington ao dar vida a outra advogada e aos deliciosos surtos de Glenn Close como Martha Delacroix. O elenco estelar, também composto por Cailee Spaeny, Daryl McCormack, Andrew Scott, Bridget Everett e Jeffrey Wright, auxiliam neste brilhantismo. Este capítulo, para muitos, pode ser melhor do que seu antecessor e até chegar ao nível da produção original, mas é sem sombra de dúvidas um daqueles filmes que consegue demonstrar como é possível oxigenar uma franquia de maneira original sem abandonar a essência. Com seu compromisso de alavancar certas reflexões sem deixar o riso, o medo e a curiosidade de lado, Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out é um daqueles filmes que mereciam um lançamento nas telonas, pois consegue entregar uma mistura de gêneros com fôlego o suficiente para entreter até os mais exigentes.

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