Glen Powell quebra tudo em O Sobrevivente, adaptação divertida e eletrizante de Stephen King
por Bruno Botelho dos SantosEm 2025, miséria, repressão, violência e poluição tomam conta de um Estados Unidos autoritário, controlado por uma megacorporação que usa do entretenimento como manipulação e controle da população. Isso poderia ser a manchete de um noticiário hoje em dia, mas se trata da premissa distópica do livro “O Concorrente”, escrito por Stephen King sob o pseudônimo de Richard Bachman e publicado originalmente em 1982. Parece que o autor foi certeiro em algumas previsões, não é mesmo?
A história foi adaptada para o cinema no filme O Sobrevivente (1987), estrelado por Arnold Schwarzenegger, e ganha uma nova versão dirigida por Edgar Wright e protagonizada por Glen Powell, que é mais fiel ao livro de Stephen King.
Paramount Pictures
O Sobrevivente retrata uma realidade sombria dos Estados Unidos, onde a economia está em colapso e a violência global se intensifica. Nesse cenário caótico, Ben Richards (Glen Powell) encontra sua única chance de salvar a família ao se voluntariar para participar do violento reality show chamado The Running Man. No programa, os participantes precisam escapar de uma equipe de assassinos profissionais enviados para matá-los durante 30 dias, com a promessa de ganhar um prêmio em dinheiro. Se sobreviver, Ben conseguirá ajudar sua filha doente e tirar sua família da pobreza.
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O filme de 1987 seguia a lógica dos filmes de brucutus dos anos 80, aproveitando o auge da carreira de Arnold Schwarzenegger, mas se distanciava bastante da história de Stephen King – tanto que ele odiou a adaptação e proibiu que seu nome fosse usado nos créditos. O novo filme vai para outro caminho, mais fiel ao material original e suas temáticas.
Por mais que visualmente seja o filme com menos cara de Edgar Wright, apresentando um mundo distópico cyberpunk não tão inventivo e derivado de produções clássicas de ficção científica, O Sobrevivente tem as marcas registradas que fizeram do diretor queridinho em Hollywood com Todo Mundo Quase Morto, Scott Pilgrim Contra o Mundo e Em Ritmo de Fuga (Baby Driver): cenas de ação frenéticas, montagem ágil e uso do humor e trilha sonora que dão uma roupagem pop e dinâmica.
O Sobrevivente tem como temas centrais vigilância como forma de controle estatal, manipulação midiática e espetacularização da violência. Desta forma, o estilo de Edgar Wright combina perfeitamente em uma narrativa caótica e cheia de energia com suas cenas de ação criativas e intensas, com boa parte do filme acompanhando a perseguição implacável contra o protagonista interpretado por Glen Powell – enquanto as críticas sociais estão presentes na construção do universo e comentários satíricos sobre a situação do mundo e seus governantes autoritários.
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Desde Top Gun: Maverick, Glen Powell vem se consolidando como um dos queridinhos em Hollywood, estrela de Assassino por Acaso, Todos Menos Você e Twisters. O Sobrevivente reforça esse "star power" do ator como um astro do cinema moderno.
Assumindo o papel que já foi de Arnold Schwarzenegger – que deu sua bênção para a nova adaptação – Glen Powell tem a fisicalidade para encarar as cenas de ação frenéticas e perseguições violentas, ao mesmo tempo que seu carisma nos faz torcer pelo personagem durante toda a produção. O ator também convence na carga dramática nas motivações de Ben Richards, arriscando sua vida no reality show para salvar sua filha e esposa, sendo aquele um herói clássico na luta contra tudo.
Ao lado de Powell, O Sobrevivente apresenta uma variedade de personagens coadjuvantes interessantes, especialmente os antagonistas: o carismático e sensacionalista apresentador Bobby T, interpretado por Colman Domingo, e o frio e sádico produtor do programa The Running Man, Dan Killian, vivido por Josh Brolin.
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Quando “O Concorrente” foi lançado em 1982, o livro era um reflexo afiado sobre o governo Ronald Reagan nos Estados Unidos e sua lógica neoliberal de lucro acima das pessoas, temáticas mais sombrias que caracterizavam os livros de Stephen King publicados sob o pseudônimo de Richard Bachman. É curioso que, em 2025, sejam lançadas duas adaptações de histórias distópicas que criticam governos autoritários e ascensão do fascismo: A Longa Marcha: Caminhe ou Morra e O Sobrevivente.
Em sua nova versão, o roteiro de Edgar Wright e Michael Bacall é bastante feliz em atualizar as temáticas para nosso mundo atual, contextualizando na era da pós-verdade, considerando que a FreeVee, rede de televisão patrocinada pelo governo, manipula e controla a população, fabricando inimigos e transformando tudo aquilo que é subversivo e revolucionário em um produto de entretenimento.
Mais do que isso, a espetacularização da violência é uma norma que faz com que os ricos e corporações dominem e empurrem os mais pobres para a miséria. A humilhação da luta pela sobrevivência é um espetáculo para as massas. Como Bobby T afirma em determinado momento, a “sede de sangue é um direito de nascença”.
Edgar Wright está mais confortável quando consegue focar mais especificamente nas perseguições e cenas de ação com Glen Powell, enquanto sofre um pouco para conseguir equilibrá-las de forma dinâmica encaixando as críticas sociais da história. Isso fica claro no começo do filme, mais arrastado para apresentar o protagonista e seu universo, assim como a parte final que é bastante corrida e expositiva na tentativa de de amarrar todos os elementos da narrativa com comentários impactantes.
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É um tanto irônico que O Sobrevivente seja produzido por uma grande empresa como a Paramount Pictures, que seria alvo das críticas traçadas pela história. Por isso é tão nítido o cinismo que transborda de produções que criticam o capitalismo e a indústria de Hollywood, fazendo parte do próprio sistema. Uma ideia de revolução sempre embalada como produto de entretenimento, inofensiva para mudar a ordem das coisas.
De qualquer forma, o longa de Edgar Wright consegue fazer comentários atuais sobre governos autoritários e manipulação midiática, ainda que sem a mesma intensidade presente na obra de Stephen King. Divertido e cheio de energia, O Sobrevivente é uma adaptação que se destaca pelas cenas de ação frenéticas e pelo carisma de Glen Powell, se aproveitando da distopia para discutir sobre os perigos do autoritarismo – mas sempre reforçando seu compromisso em entreter como os melhores filmes pipoca. Por mais contraditório que isso seja...