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    Showing Up
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Showing Up

    A extraordinária vida real

    por Aline Pereira

    A edição de 2022 do Festival de Cannes trouxe às telas uma série de histórias grandiosas em cenário, ritmo, choque, entre outros diversos aspectos - do grande vencedor Triangle of Sadness ao excêntrico Crimes of the Future. Showing Up não tem nada disso, mas é tão poderoso quanto. O filme estrelado pela indicada ao Oscar Michelle Williams se fecha em uma trama muito pessoal, mas com uma capacidade sensível e certeira para nos fazer imergir, de pouco em pouco, em sua própria realidade - e é muito fácil se encontrar em algum lugarzinho dentro dela. 

    Da mesma diretora do excêntrico (e maravilhoso!) First Cow - A Primeira Vaca da América, Kelly Reichardt, Showing Up tem como protagonista Lizzie (Michelle Williams), uma artista plástica que está se preparando para a abertura de sua própria exposição em uma galeria. A vida dela nesse meio tempo, no entanto, é cheia de particularidades e pequenos acontecimentos, especialmente conectados à família desajustada e à relação peculiar que Lizzie tem com Jo (Hong Chau), sua vizinha que também é artista e dona da casa que a protagonista aluga.

    Showing Up tem protagonista realista e que nos divide o tempo todo

    Sem grandes artifícios ou momentos impactantes ao longo da história, Showing Up aposta no magnetismo de sua protagonista - e funciona perfeitamente. Michelle Williams tem uma sensibilidade e uma melancolia que a tornam um personagem incrivelmente realista e convincente. Talvez por isso, justamente, também tenhamos uma personagem um pouco incômoda em alguns momentos: Lizzie frequentemente se deixa levar por situações que claramente a incomodam, mas muito raramente tem o ímpeto de enfrentá-las.

    É difícil encontrar quem já não tenha escolhido simplesmente “deixar para lá” um confronto em alguns momentos da vida, seja lá por qual motivo. Mas assistir à essa “passividade” (se é que dá para colocarmos assim) de Lizzie também é incômodo. Como observadores externos das situações que ela está vivendo, especialmente no que diz respeito a seus relacionamentos com outras pessoas, a vontade é de se colocar no lugar dela e enfrentar as batalhas que ela decide não travar, mas que parecem muito simples de ser resolvidas. 

    A relação que mais me chamou a atenção aqui foi entre Lizzie e Jo porque existe um carinho e um estranhamento entre elas, especialmente porque a vizinha - e todo mundo deve conhecer alguém assim - vive tão absorta em sua própria bolha que é difícil furar a “superficialidade” (novamente, se é que dá para colocar assim) da amizade entre elas. Teoricamente, Jo é responsável casa em que Lizzie mora e a protagonista pede a ele diversas vezes que arrume a água quente do chuveiro. “Preciso sair para trabalhar”, diz a artista incontáveis vezes. 



    Jo nunca conserta esse chuveiro e é como se Lizzie nunca tivesse a permissão de sair e continuar vivendo sua vida sem precisar passar pelo banho de água fria todos os dias - mas também, como mencionado antes, não tem a disposição de confrontá-la diretamente. Jo também é artista, mas parece ter muito mais confiança e prestígio de sua comunidade, o que coloca Lizzie em uma posição ainda mais à sombra e, consequentemente, menos favorável para se impor com mais firmeza - uma situação que boa parte de nós já experienciou em algum momento da vida. 

    A arte precisa ser solitária? 

    Uma das principais características de Lizzie é a solidão, também retratada de uma maneira muito particular em Showing Up. Não existe um grande drama propriamente dito ao redor do assunto, mas sim uma discussão sobre como o sentimento de solidão também faz parte das relações da personagem com as pessoas à sua volta. Como artista, Lizzie trabalha muito sozinha e a diretora Kelly Reichardt levanta uma questão interessante sobre o papel da solidão em nossas vidas e sobre os frutos que o silêncio ao redor pode trazer. 

    O distanciamento que Lizzie mantém, por escolha própria ou não, dos outros se reflete no que ela produz de forma muito poética e vale prestar atenção, ao assistir ao filme, nos bonecos que a artista cria. A arte, de forma geral, é bastante subjetiva e o que vamos encontrar nela depende muito de nossas próprias bagagens e vivências, mas uma das interpretações que podemos extrair está na posição das figuras de Lizzie - eles estão em movimento, mas, ainda assim, parados. Uma sensação que parece ser compartilhada pela protagonista. 

    Showing Up retrata a figura do artista de uma forma que não é tão comum na ficção: longe de parecer excêntrica ou muito distante da realidade (como Jo, por exemplo), Lizzie trata sua arte como um trabalho muito sério, sóbrio. É curioso observar como uma personagem tão metódica e prática, de muitas maneiras, cria peças tão cheias de nuances e subjetividades. 

    Showing Up tem metáfora óbvia, mas não é exatamente um defeito 

    Um dos principais pontos iniciais do filme é um pombo: o pássaro sofre um acidente perto da casa de Lizzie e fratura uma das asas. Após alguma resistência, a personagem acaba cuidando do animal até sua recuperação - em uma metáfora bem óbvia de sua própria libertação. Não é raro que pássaros sejam utilizados como símbolos de liberdade, de libertação da gaiola para o mundo - não é diferente com Showing Up.  

    A metáfora da asa quebrada parece simples e fácil demais, é verdade, mas ainda assim há um quê de particularidade no bicho escolhido. Lizzie está cuidando de um pombo, pássaro que além de não ser normalmente associado à beleza, é, muitas vezes, visto como uma praga. Podemos encontrar ainda mais uma interpretação para o pombo que é a banalidade em seu estado mais puro: trata-se de uma presença comum, um animal que passa despercebido ao olhar da maioria das pessoas. Lizzie também tem um pouco disso - o que não significa que ela também não tenha as próprias asas. Mesmo que ninguém as veja direito. 

    Showing Up é um filme simples sobre a vida real que mostra como a normalidade também pode ser extraordinária. A maioria dos acontecimentos do dia a dia, as escolhas mais corriqueiras e os menores traços de nossa personalidade são o verdadeiro impacto que movimentam todo o resto.

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