O filme que, ao que parece, decidiu transformar as mais elementares normas do bom senso em pó, só para ver o que aconteceria se a hipocrisia e o absurdo se encontrassem de forma tão descarada. Se algum dia o mundo cinematográfico tivesse uma versão distorcida do sonho americano, 365 Dias seria sua essência destilada em três filmes. E, sim, você leu corretamente – uma trilogia! Uma monumental realização cinematográfica com um único propósito claro: um desfile de erotismo sem qualquer traço de substância, que poderia, com um pouco de sorte, ser confundido com um ensaio de como não desenvolver narrativa.
A história gira em torno de Laura, uma mulher que é sequestrada por um mafioso polonês chamado Massimo, que, claro, a "liberta" com a inusitada promessa de que ela tem 365 dias para se apaixonar por ele. Ou seja, temos o clássico cenário de uma relação baseada no "amor à força" (literalmente) e, em vez de abordar de maneira crítica questões de consentimento ou relacionamentos abusivos, o filme adota essa abordagem como se fosse a premissa de uma história romântica. Para aqueles que, como eu, ainda tentam encontrar algum tipo de lógica ou até mesmo um fio de sanidade nesse cenário, a resposta parece ser apenas um sorrisinho sarcástico e uma resignação amarga: “é isso mesmo, gente, é isso o que estamos fazendo agora”.
O enredo, ou melhor, o esboço de enredo que 365 Dias tenta oferecer, é uma caricatura da realidade, onde a profundidade emocional é substituída por cenas de sexo apelativas que mais parecem desfiles de pornografia de baixo orçamento do que qualquer outra coisa. As personagens, então, são simplesmente uma piada. Laura é basicamente uma mulher em coma existencial, cuja única função é responder aos caprichos de Massimo. E Massimo... Bem, Massimo é a encarnação de todas as ideias erradas sobre o que significa ser um “homem misterioso e dominante”. Ele é apenas um mafioso estereotipado, de intenções questionáveis, que se comporta como se estivesse em um romance de cordel, mas com muito mais dinheiro e muito menos respeito pelo público.
Agora, para aqueles que estão se perguntando, "mas a parte boa é que é erótico, não é?", sim, eu posso confirmar: o filme tem cenas de sexo. Muitas. E a quantidade de cenas eróticas é de fato surpreendente, não porque são bem feitas, mas porque o próprio enredo se apoia nelas como se o mero ato de dois corpos se encontrando fosse o suficiente para justificar a construção de uma história. Mas não se enganem, essas cenas, longe de serem uma celebração do prazer humano, mais se assemelham a uma exibição de voyeurismo barato, em que tudo é reduzido a uma sequência interminável de corpos nus, rosnados e olhares intensos, com uma narrativa secundária que, se fosse um mero acidente, teria sido uma fatalidade para o filme.
E se você pensou que um único filme não seria suficiente para explorar esse emaranhado de desequilíbrio entre um pseudo-romance e o que basicamente é uma vitrine de fetiches sem contexto, prepare-se para a mais humilhante revelação de todas: 365 Dias ganhou uma trilogia. Uma obra de arte cinematográfica foi tão bem recebida que gerou mais duas sequências, como se o simples fato de manter os mesmos elementos básicos de um roteiro insuportável fosse suficiente para manter a audiência envolvida. A fórmula é tão simples quanto uma equação de dois termos: mais cenas de sexo, menos enredo. E quem diria que as mentes criativas por trás dessa “trilogia” acharam que a adição de mais duas partes ajudaria a vender a ideia de que isso é cinema.
Entretanto, há uma ironia fina por trás dessa sequência de eventos. A trilogia de 365 Dias revela, em sua essência, o mais puro distanciamento da arte cinematográfica. Aqueles que buscam um entretenimento que não exija nenhum tipo de reflexão ou compreensão do que está sendo projetado, encontram em 365 Dias a perfeita fuga para um tipo de prazer que exige o mínimo de esforço cognitivo. Uma produção vazia que, em sua tentativa de chocar e seduzir, acaba revelando sua mais profunda falência intelectual. Uma história de amor que não é apenas imprópria para qualquer pessoa com um senso básico de moralidade, mas é também uma enorme afronta ao conceito de narrativa. O filme não só falha ao abordar um tema sensível como o abuso e o consentimento, como também transforma um terreno fértil para crítica social em um festival de superficialidade e desrespeito.
Enfim, a conclusão que podemos tirar de toda essa bagunça é clara: 365 Dias não é apenas um filme ruim – é um projeto cinematográfico que encarna a banalidade do entretenimento descompromissado, onde o roteiro é só um meio de sustentar cenas vazias e repetitivas, e os personagens, meros pretextos para a exibição de desejos estereotipados e sem substância. Em vez de nos proporcionar uma reflexão sobre relações abusivas e sobre o que realmente significa consentimento, 365 Dias oferece uma representação distorcida e extremamente perigosa de uma dinâmica humana complexa, enquanto se esconde atrás de cenas eróticas como uma muleta para uma trama que não vai a lugar algum.
Se você está procurando uma obra cinematográfica que desafie os limites do bom senso e ofenda seu intelecto de maneira eficaz, pode parar de procurar: 365 Dias é sua obra-prima. E, caso você ache que uma trilogia vai melhorar a experiência, pense novamente – ela apenas a prolonga, com a graça de um acidente de trem que, ao invés de terminar, insiste em fazer mais uma volta.