Logo que estreou no mundo todo, alguns críticos se apressaram em usar a caneta e escreveram: “não vá, é perda de tempo – não vale a pena – gaste seu tempo com outro entretenimento”.
Ao mesmo tempo, rolavam notícias de que os espectadores dançavam no escurinho do cinema, enquanto tocava uma trilha sonora nostálgica e que fez parte de gerações (as mesmas gerações que hoje são mais maduras).
Dois opostos que, de forma proposital ou acidental, atiçam a curiosidade em torno de “Michael”. Primeiro e óbvio motivo é discorrer sobre um dos ídolos mais influentes da música no final do século XX. E segundo motivo: o que há por de trás do mito Michael Jackson? Para as novas gerações que não curtiram a fase avassaladora do cantor americano, vale a pena “gastar o tempo”?
Antes disso, é bom frisar que a indústria de Hollywood vive de fases e “Michael” é um reforço já meio enjoativo por causa de outras cinebiografias lançadas nos últimos anos. Elvis Presley, Freddie Mercury, Bob Marley e Elton John são exemplos. Talvez os dirigentes maiores das produtoras de filmes não tenham ficado satisfeitos e decidiram investir numa espécie de “cereja do bolo”.
E a personalidade e o talento precoce de Michael Jackson se enquadram perfeitamente nessa fruta decorativa do bolo.
O filme tem duas horas de duração e quem for assistir no intuito de curtir à parte dos escândalos e das acusações contra o “Rei do Pop”, sofrerá uma enorme decepção. Isso porque a película para justamente na turnê mundial “Bad”, a qual ocorreu em 1987/88. Então fica um lapso a tratar futuramente, já que Michael Jackson morreu em 2009. Tem muito pano para a manga.
Então “Michael” é uma obra de um ato? Será que haverá continuação? Perguntas inquietantes que só a Família Jackson poderá um dia responder. Essa continuação dependeria daqueles que mais conviveram com o astro mirim.
O enfoque do lado A do filme se desenvolve desde a infância pobre e cheia de exigências, ensaios dentro do lar e apresentações musicais até as manias que Michael começou a ter quando a fama lhe batia à porta com generosidade.
Sem surpresa nenhuma, porém com uma pitada a mais de cobiça e de aparência mais assustadora, Joe Jackson (encarnado pelo ator Colman Domingo) vê que seus filhos podem ter um destino diferente do dele, um operário da cidade de Gary, estado de Indiana.
Assim, os longos, exaustivos e metódicos treinos na sala durante a noite/madrugada viram ordem e dominação. Revelam a tirania de Joe. Um vilão perfeito da vida real na tela de cinema. O ônus todinho para ele.
Além de se concentrar na vida familiar nem sempre tranquila, uma vez que a ambição de Joe extrapola todos os limites, “Michael” narra a personalidade e o alcance de uma carreira que tencionava ser a maior de todas.
As tensões com o pai só aumentam quando ele resolve seguir carreira solo e, posteriormente, quando recusa fazer uma turnê com os irmãos; afinal, Joe pensava só em grana. As apresentações de palco de seus cinco filhos eram a fonte.
Quem pensa que o filme apresenta um lado de Michael Jackson totalmente diferente, vai se limitar à excentricidade. Isso é um fato, pois existem momentos em que ele adquire cobras, chimpanzés e girafas em sua casa. Ou ainda: um montão de brinquedos para se divertir. Sinais de um jovem que, como qualquer outra pessoa, queria e não teve uma infância. É o que mostra a película. Uma visita e um retorno a uma fase perdida da vida? Um contraponto a tantas suspeitas e vigilância em torno da pessoa de Michael?
Se a história é simplista ou superficial em alguns aspectos, não dá para não perceber o processo criativo do astro musical. Interessantes são o preparo e a montagem de certos hits como “Thriller” e “Beat It”. Filmes de horror, noticiários sobre a violência em Los Angeles servem de inspiração.
Indubitavelmente e com direito a aplausos de pé, o ator e protagonista Jaafar Jackson deve ter “perdido” horas, dias e semanas para imitar com extrema autenticidade a mesma agilidade que o tio tinha. Ele é filho de Jermaine Jackson. Só não monopoliza o filme porque o “Michael infantil” é interpretado muito bem por Juliano K. Valdi.
À medida que o filme prossegue, aumenta a tendência para a dança, motivo que vira graça nas gravações de “Off the Wall” e ponto de alerta feito por Quincy Jones no momento de estúdio.
Com enredo de pouca consistência para os que gostam de emoções fortes na telona, “Michael” pode não ser o filme do Oscar; entretanto não dá para desprezar a atuação do elenco, incluindo os atores que encarnam o Jackson Five, a trilha sonora e o recordar de alguns episódios que, mesmo negativos, levantaram a carreira do artista mirim. Fazia tempo que ninguém falava da “gomalina inflamável” durante as gravações de um comercial de refrigerante.
São duas horas – ou um pouquinho mais do que isso – em que dança, música, o alcance do topo e o “pé na bunda” corajoso dado no pai se misturam e tornam o filme agradável, sem necessidade de usar a inteligência, a análise ou o pensamento.
Quanto a dançar nas salas de cinema, o melhor é buscar as poltronas do fundo, pois, com certeza há e haverá gente que vai se levantar da cadeira ou esperar o término do filme para dar seus passos.
Uma dica ou ponto de atenção: a irmã Janet Jackson não aparece nesse primeiro ato de “Michael”; por que os olhares só para La Toya? Será que é um chamariz para a continuação do segundo ato?