Em Coração de Lutador: The Smashing Machine, Dwayne Johnson deixou o carisma de lado e mostrou a face mais frágil de um vencedor
por Nathalia JesusAntes de ser levada aos cinemas por Benny Safdie, a história do atleta Mark Kerr já havia ganhado notoriedade no documentário The Smashing Machine, lançado em 2002. O filme original acompanhava o auge e a queda de um dos grandes nomes do MMA, mostrando não apenas sua força dentro do ringue, mas também o impacto devastador de lesões, vícios em analgésicos e turbulências pessoais. Foi um retrato cru de um campeão dividido entre a glória pública e os fracassos privados.
Na nova versão, Coração de Lutador: The Smashing Machine, Safdie não se limita a reencenar os principais fatos da vida do lutador. Seu interesse é menos jornalístico e mais existencial: em vez de construir uma narrativa triunfalista, o diretor escolhe explorar o vazio entre a vitória e a queda.
As lutas, embora presentes, raramente são filmadas como clímax; o que importa está fora do octógono, nas discussões íntimas, nas recaídas silenciosas e nos gestos de cansaço. É um olhar que evita a exaltação e aposta na desconstrução do que é ser um vencedor.
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Desde os primeiros minutos, fica claro que Safdie não pretende seguir a cartilha de uma cinebiografia esportiva convencional. As lutas são registradas de forma parcial, como se o público estivesse atrás das cordas, impedido de ter uma visão completa. Esse distanciamento transforma o espetáculo em algo secundário e desloca o foco para as consequências do combate: corpos marcados, relacionamentos corroídos, um homem tentando sustentar uma identidade que já não cabe em si mesmo.
Esse recurso, embora coerente com a proposta, gera efeitos ambíguos. De um lado, evita que a trajetória de Kerr se torne uma fábula edificante. De outro, cria certa frieza nos momentos em que a narrativa poderia se beneficiar de uma aproximação mais visceral. Safdie prefere a contenção ao excesso, e essa decisão confere autenticidade ao retrato, mas também deixa lacunas emocionais que podem frustrar parte da audiência.
Até mesmo a caracterização segue esse caminho desconfortável. As próteses e maquiagens que transformam Dwayne Johnson em Kerr não escondem o artifício, pelo contrário, o realçam. É como se Safdie quisesse lembrar constantemente ao público que está diante de uma encenação, reforçando o contraste entre o astro de Hollywood e o homem dilacerado que ele interpreta.
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Se a direção pode dividir opiniões, a entrega de Dwayne Johnson é praticamente unânime em sua força. O ator encontra em Mark Kerr um papel que exige não apenas a imponência física pela qual se tornou conhecido, mas também a disposição de desmontar essa imagem. Sua interpretação evita qualquer glamour: em vez do herói invencível, vemos um homem que oscila entre disciplina e autodestruição, autocontrole e recaída. Essa dualidade se traduz em silêncios incômodos, olhares pesados e uma corporeidade que já não consegue sustentar o mito de que o protagonista é invencível.
A transformação é radical. Johnson, acostumado a papéis que exploram sua força como garantia de carisma, aqui aparece como um colosso fraturado. Cada movimento parece carregado de peso, como se o corpo fosse uma prisão em vez de um troféu. É um desempenho que surpreende não pela grandiosidade, mas pela vulnerabilidade. Ele não teme mostrar o lado patético de um campeão em queda, expondo dependências, crises e contradições que corroem qualquer resquício de idealização.
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Emily Blunt, por sua vez, enfrenta um desafio delicado. Sua personagem, Dawn Staples, não se limita a ser apoio ou contraponto; ela é parte fundamental da espiral de tensão. Sua presença é marcada por dureza, cobranças e conflitos, mas nunca se reduz a um estereótipo de companheira ressentida. Blunt oferece nuances suficientes para que Dawn seja vista como alguém que também tenta sobreviver a um relacionamento em colapso, dividida entre afeto e exaustão.
A química entre os dois não nasce do romantismo, mas da colisão. As cenas em que compartilham espaço carregam uma tensão elétrica, revelando uma intimidade que se confunde com violência, proximidade que beira a implosão. Momentos domésticos, aparentemente banais, tornam-se mais intensos do que qualquer luta dentro do octógono. É ali, longe das câmeras esportivas, que se travam as batalhas mais dolorosas.
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Coração de Lutador: The Smashing Machine se destaca por recusar atalhos fáceis. Não há catarse heroica, nem final reconfortante, reforçando a ideia de que nem todos os combates terminam em vitória. O filme se aproxima mais do retrato cru de um corpo e de uma mente em colapso do que de uma trama de superação. Essa escolha o torna um trabalho ousado, mas também difícil, tanto para o público acostumado ao cinema esportivo — sempre tão sedento em exibir heróis a caminho da glória — quanto para quem busca narrativas lineares.
Essa repetição, contudo, pode cansar. Em alguns trechos, a trama parece girar em círculos, sem apresentar novas camadas de conflito. O que inicialmente soa como um retrato honesto da estagnação acaba, por vezes, esvaziando o ritmo. Da mesma forma, quem espera mergulhar nos bastidores do MMA encontra menos lutas e treinos do que dramas pessoais. O esporte é cenário, não protagonista, e essa decisão pode afastar parte do público.
Ainda assim, há méritos claros. O filme encontra sua força na disposição de confrontar o espectador com a desconfortável realidade de um ídolo em decadência. A direção de Safdie contribui para a sensação de claustrofobia e desgaste, enquanto as atuações sustentam o peso emocional. Johnson, em particular, mostra que pode reinventar sua carreira ao assumir riscos que antes pareciam improváveis.
Por fim, The Smashing Machine é um filme de contradições. Mas talvez seja justamente isso que o torna relevante: a coragem de recusar fórmulas, de abraçar a aspereza e de transformar a trajetória de um lutador em metáfora para a fragilidade humana. E talvez seja justamente aí que resida sua força.