Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar: Críticas - Página 2
Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar
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Edvaldo Santos
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Enviada em 14 de julho de 2019
Mais uma viagem de Marcelo Gomes. Um diretor de filmes sobre andanças e reflexões dos nordestinos pitorescos. O bem sucedido diretor tem talento indiscutível para entrar nos calabouços geográficos e nas profundezas da alma de um atípico ser humano nordestino. Em "Viajo porque preciso, volto porque te amo" seus personagens, nas caladas da noite, nos fazem pensar sobre o que faz o diretor nas madrugadas sombrias: Uma obsessão pelo obscuro ou um fetiche de gabiru? Agora, em ESTOU ME GUARDANDO PARA QUANDO O CARNAVAL CHEGAR apresenta uma fotografia clara, vibrante, cores intensas. Um convite para uma possível apresentação de uma atividade econômica que vem mudando a vida da população local. Em uma chegada triunfal ao local de investigação (cidade de Toritama, interior de Pernambuco) vemos o contraste bem delineado entre a riqueza e a pobreza no enquadramento dos outdoors e da vegetação seca às margens da BR 104. Com uma edição extraordinária e um desenho de som dos mais qualificados vai apresentando ao mesmo tempo pessoas, e as ruas da cidade. A narração do próprio diretor nos indica quem estará no controle de nossa viagem. Mas, pra onde vai Marcelo? Se formos nos orientar pelo seu texto de sinopse começaremos a nos decepcionar. Ouvindo relatos de algumas pessoas sobre populações que migram para as praias em período de feriado prolongado (inclusive o Carnaval). ele reduz ao proletário da confecção de Toritama um único destino, um único lazer. Como loucos, desesperados saem os moradores para locais que lhes ofereça diversão. Algo não observado por Marcelo na região agreste. Pra quem não conhece a região acaba por acreditar neste conto. Tantos eventos da cidade e da região concentram milhares de participantes, como o Festival do Jeans de Toritama e as prestigiadas Festas juninas. O filme apresenta uma "investigação" nas fábricas residenciais, chamadas de "facções". Parece-nos que as lentes estão voltadas para apenas aqueles coitados que faturam alto e não sentem falta de assinar carteira de trabalho. O filme definha pelo que não mostra. As caminhonetes passam nas ruas e seus proprietários não são vistos. As grandes fábricas são compostas por máquinas de última geração. E estes proprietários? Onde estão? Poderiam estar lá, sim. Mas o recorte do diretor tem uma intencionalidade. Sustentar o que o título e a sinopse sugerem. Até uma filmadora é emprestada para registrar os possíveis "vexames dos matutos" no litoral. As cenas de pessoas ressacadas acordando são repetidamente exploradas. Com qual função no filme? Até o crescimento desordenado da cidade é retratado com pedreiros desajeitados. Será que esta apelação seria tão importante para apresentar as distorções capitalistas? Ou o aspecto jocoso do filme esta na proporção de sua venda como produto exótico? Em A GREVE, Eisenstein já explora todo este universo. O riso hoje é natural para o contexto. Estariam os personagens de Marcelo num contexto de chacota? Tudo isso muito lamentável para um grande cineasta que parece ao se conectar com suas origens sugere estar se desconectando, com uma ira sem razão de existir. Um bom filme para debater sobre a urbanização dos municípios do Nordeste.
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