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    O Que Resta
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    O Que Resta

    Festa de todos os beijos

    por Bruno Carmelo

    É curioso encontrar nos cinemas um projeto como este drama dirigido por Fernanda Teixeira. A trama dispensa grandes conflitos, concentrando-se basicamente em grandes festas num casarão onde os amigos brincam, riem, bebem e fazem sexo. Não existe a intenção de encaminhar estes personagens a um rumo preciso, apenas fazer um retrato de suas inseguranças naquele momento - como bons hedonistas, estes jovens vivem o tempo presente. A produção de baixo orçamento não esconde sua frágil textura digital, no entanto os diálogos buscam efetuar um amplo tratado sobre os afetos contemporâneos. Estamos diante de algo ao mesmo tempo despretensioso e pretensioso demais.


    A cineasta encontra no sexo e nas drogas uma forma de proposição crua dos relacionamentos. Estes jovens são livres, beijam todos e transam com todos, num espaço-tempo descolado do mundo ao redor. O chefe às vezes liga para solicitar correções num documento, mas a festa não para. Novas pessoas aparecem na casa, porém os personagens jamais abandonam esta espécie de Eden contemporâneo. Sempre existe álcool de sobra, uma piscina limpa à espera e novos corpos para desfrutar. Não há impedimentos financeiros, amorosos, morais. A narrativa sugere um possível desgaste entre Barbara (Renata Guida) e Luiz (Guilherme Dellorto), por multiplicarem os parceiros dentro da casa, mas nada que uma transa intensa não conserte.



    A diretora adota uma postura corajosa, filmando os corpos sem idealização, investindo em longas cenas de sexo sem cortes, trabalhando diferentes profundidades de campo (uma briga ao fundo do plano, enquanto os amigos conversam à frente), buscando alternativas para a imagem dos diálogos através de movimentos em forma de arco ao redor dos personagens. A cada vez que o enquadramento se abre demais, as deficiências de produção e captação se tornam mais visíveis, enquanto a fotografia transparece limitações no uso da luz. No entanto, Teixeira sabe tirar o melhor do dispositivo que possui em mãos.


    Por outro lado, o aspecto pedante dos diálogos chega a incomodar. O que Resta transparece uma entrega louvável do elenco, disposto a tratar com naturalidade o tom empolado da escrita. No entanto, a constante oposição entre o natural e o artificial prejudica o resultado. “Que linguajar é esse?”, pergunta Barbara a um jovem rapaz, e talvez o espectador se proponha o mesmo questionamento diante da longa digressão sobre o caráter senhorial de uma cômoda de madeira, ou sobre a qualidade da maconha orgânica. Essa forma de existencialismo hipster demonstra plena consciência de seu caráter burguês, embora jamais o critique de fato, nem proponha um modo alternativo de vida.



    O resultado é um projeto singular e inteligente na adequação da linguagem aos recursos de produção. O roteiro também se encaixa muito bem nos recursos disponíveis, privilegiando o material humano à multiplicidade de cenários, objetos e deslocamentos. Sua visão de mundo prefere a constatação à análise deste mundo particular. Entre momentos muito bons (a conversa entre Barbara e a personagem de Bruna Linzmeyer) e outros abruptos e mal escritos (as duas cenas entre Yuri e Luiz), o saldo é positivo. Vale acompanhar com atenção os próximos passos de Teixeira como diretora.


    Filme visto no 26º Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, em novembro de 2018.

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