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    Tragam a Maconha
    Críticas AdoroCinema
    2,5
    Regular
    Tragam a Maconha

    Os bufões da liberação

    por Bruno Carmelo

    Uma rápida explicação inicial lembra o espectador que o Uruguai foi o primeiro país a legalizar a maconha, encarregando o próprio governo de controlar a produção para combater o tráfico. Mas como começar a produzir maconha do dia para a noite? De que maneira vendê-la, a qual preço? Entra em cena um grupo de farmacêuticos aproveitadores – e fictícios, é claro – para aceitar uma missão ultrassecreta nos Estados Unidos, tendo como objetivo comprar e transportar toneladas de marijuana norte-americana para suprir a demanda dos uruguaios e salvar a popularidade do presidente Pepe Mujica. Tragam a Maconha se assume como mockumentary, o falso documentário que aborda uma história ficcional com linguagem realista.


    A trinca de diretores composta por Denny BrechnerAlfonso GuerreroMarcos Hecht tem um trunfo de peso nas mãos: a presença do próprio ex-presidente, que aceitou participar em pequenas cenas, potencializando a verossimilhança do resultado. De resto, os criadores imaginam uma viagem improvável à América do Norte, onde se descobre uma verdadeira cultura da maconha. Este é o melhor aspecto do projeto: revelar o uso medicinal da erva, o viés empresarial, seus museus, congressos, festas, e mesmo igrejas em que maconha desempenha um papel sagrado. Para muitas pessoas, tanto no país progressista sul-americano quanto na costa oeste dos Estados Unidos, a legalização da marijuana é uma questão de lutas diárias.


     


    O aspecto cômico funciona bem. Brechner, atribuindo a si mesmo o papel principal, cria um personagem deliciosamente amoral, que aceita a missão mais por curiosidade do que patriotismo ou engajamento político. No entanto, o encontro dos personagens fictícios – Alfredo (Denny Brechner), sua mãe (Talma Friedler) e um policial uruguaio (Tato Olmos) – com pessoas reais, muito bem intencionadas e solícitas, beira o desrespeito pelo modo como os porta-vozes do movimento são ludibriados pelos falsos membros da “Associação Uruguaia da Maconha Legal”. Estas pessoas não chegam a ser ridicularizadas, no entanto os cineastas fazem questão de criar situações constrangedoras – em especial aquelas envolvendo o embaixador e o militante dentro de um albergue. Quem diria que este documentário encontraria problemas éticos não com a droga, e sim com a abordagem cinematográfica?

     

    Além disso, os cacoetes do documentário-espetáculo não funcionam como há 15 anos, na era pré-smartphones, pré-explosão de redes sociais, pré-fake news. Tragam a Maconha se aproxima bastante de Borat e Bruno, ambos dirigidos por Sacha Baron Cohen, além de remeter à abordagem de Michael Moore ou Morgan Spurlock, que consiste em colocar o próprio diretor em cena como um personagem cínico visando extrair dos entrevistados opiniões que já possua. O desconforto das pessoas filmadas é oferecido ao prazer do público, mas sem o consentimento das mesmas enquanto são retratadas. O procedimento não deixa de soar retórico, utilizando entrevistados como meros objetos de humor, não distante das pegadinhas televisivas. Os membros da igreja, por exemplo, são retratados de modo um tanto patético pelas câmeras.


     


    Por fim, o projeto não aprofunda o debate sobre a libertação ou proibição da maconha, tampouco explora as diferentes experiências com a legalização da droga nos Estados Unidos e no Uruguai, países tão diferentes em economia, história e hábitos sociais. A comédia corre o risco de transformar uma reflexão importante em brincadeira, minimizando sua importância. Pelo menos, o espectador terá a oportunidade de conhecer os entraves políticos do tratamento das drogas como uma questão de saúde pública, ao invés do objeto de uma guerra de Estado. Além disso, presenciará o próprio Mujica, atuando no papel de si mesmo, num símbolo potente de sua proximidade com as artes e da humildade com que abordou a função de presidente.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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