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    Relatos do Front
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Relatos do Front

    Raízes da criminalidade brasileira

    por Bruno Carmelo

    Este documentário é o tipo de projeto que não poderia ter existido no cinema quinze anos atrás. O filme não apenas é captado em formato digital, mas deve à popularização dos smartphones e câmeras caseiras uma parte substancial de seus materiais de arquivo. Na época em que todos andam com seus celulares nas mãos, foi possível aos moradores das favelas cariocas filmar as ações truculentas da polícia contra os moradores, de modo indiscriminado, assim como registrar a ação das milícias e dos traficantes no morro. Relatos do Front é fruto desta disseminação da câmera-testemunha, a câmera sempre ligada cujas imagens não são produzidas apenas pelo artista, mas também pelo ativista, pelo youtuber caseiro, por qualquer indivíduo disposto a registrar o mundo à sua volta.


    Entre as imagens fornecidas pelo diretor Renato Martins se encontram muitos tiroteios, cadáveres nas ruas, poças de sangue, funerais com familiares aos prantos. Não se trata de um conteúdo fácil, porém o cineasta parte do choque para chegar à mensagem de que todos perdem com a criminalização da pobreza e a conversão da luta às drogas em guerra, sejam policiais ou civis. Ganham apenas os políticos, cujos gestos espetaculares contra o crime rendem votos, além da indústria armamentista, capaz de eleger cada vez mais deputados e senadores. Em outras palavras, a criminalidade não é combatida por render lucros e privilégios às altas esferas do poder.


     


    O documentário se apoia numa estrutura convencional, combinando imagens caseiras com dados extraídos de jornais (teria sido importante verificar a veracidade dos mesmos, não?) e depoimentos. As entrevistas são realizadas com um painel particularmente bem articulado e diversificado, composto tanto por pesquisadores (sociólogos, historiadores) quanto por familiares de vítimas da violência, além de policiais, delegados, ex-presidiários e traficantes. As entrevistas são bem conduzidas, e a montagem sabe manter em tela apenas os discursos mais eloquentes sobre as origens e circunstâncias atuais da violência no Brasil. Debate-se o efeito psicológico de crescer na pobreza, o ódio incitado nos policiais contra os moradores de comunidade, e vice-versa. Ao invés de julgar, este projeto se lança na tarefa complicada, e indispensável, de analisar como chegamos neste estado das coisas.

     

    Excelente em sua vertente reflexiva, o documentário é prejudicado por certa tendência ao sensacionalismo. É compreensível que se escute as mães cujos filhos foram mortos, no entanto, as cenas de desespero, com choros em close-up e música triste são numerosas demais, como se o debate de ideias não bastasse, precisando de certa coerção emocional para se comunicar com o público. Paralelamente, a dramática parte final se arrasta um pouco antes da conclusão; e para um projeto capaz de reunir pesquisadores tão incisivos, terminar com a frase de um líder religioso estampada na tela soa uma escolha bastante equivocada.


     


    Mesmo assim, Relatos do Front se destaca de tantos projetos sobre a criminalidade por não se limitar à constatação dos fatos. Para Martins e sua equipe, os dados são apenas o ponto de partida para se compreender a herança escravocrata, a função justiceira atribuída às forças de ordem, e a utilização da polícia como um “exército dos privilegiados contra os pobres”, de acordo com um entrevistado. Em estilo simples, porém eficaz, com boa edição sonora e competente filmagem das entrevistas, o documentário possui grande importância em tempos avessos ao debate de ideias.

     

    Filme visto na 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, em outubro de 2018.

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