MAIS UM DESASTRE DE JAMES GUNN.
Fezes kryptonianas puríssima². Dias atrás, eu estava tendo uma conversa com um amigo, e a pauta dele era que o cinema de herói está tão repetitivo que ele cansou de vez. Que iria se desvincular das assistidas e nunca mais retornar. Isso pelo gênero ter se tornado um lugar imundo onde a mediocridade e o jeito displicente de fazer as coisas reinam, só se mantendo de pé porque tem imbecil que banca o esquema ganancioso de patifes. E hoje, Supergirl provou essa tese e escancarou de vez o ranço que eu também estou pegando por esse gênero que um dia foi tão amado por mim. Onde, no passado, tínhamos o lendário Superman de 78, agora, no lugar, temos a desgraça e a ruína completa, remetendo a uma blasfêmia ofensiva do que um dia já foi honroso. Esse longa não passa de mais uma estratégia da DC para fisgar otário; consequentemente, mais um filme maldito e sem alma. Sendo feito em cima do hype de Superman, do James Gunn (que também é outra merda), o filme parece seguir os passos de seu pai; ao invés de apostar numa história que cative, com vilões marcantes e inovar sua proposta em um gênero tão saturado, só recicla coisas do cinema heroíno passado; uma fórmula marvelizada insuportável e que parece ter se tornado rotina na indústria. E sim, eu estou de saco cheio de ficar trazendo de novo esse assunto da mesmice nas minhas críticas, mas fazer o quê? Só respiramos por tubos em meio a repetição enquanto torcemos para uma mão amiga do Matt Reeves nos ajudar com The Batman: Part II. O espectador grita para a inovação: "me ajude! Eu não aguento mais tanto enlatado!" E a inovação só ignora. Um ghosting doloroso, que trai sentimentos.
Aí vamos pelo seguinte caminho: piadas mal estruturadas e com um humor forçado, exalando a sem-gracice. É tudo para falar: "antes de me criticarem, eu mesmo vou me zoar adicionando uma mudança de tom radical", uma piscada cínica e covarde de sangrar os olhos. Não deu outra: não tem peso dramático, não tem algo que faça você se importar com qualquer merda abordada na trama, não tem carisma e não tem tudo o que me faça achar que há algum capricho ali. Por mais que eu goste dessa jornada da SuperGirl solteirona, alcoólatra e sem esperanças de futuro, que iria causar uma redenção emocional, vamos de cima para baixo em questão de segundos. Qualquer sinal de luz narrativa é abafada por uma personagem esquecível, que tem como motivação vingar seus pais. Isso desperta uma vontade na produção de colocar uma aventura de amigas (inventiva até certo ponto) e enfiar goela abaixo a clássica mensagem "profunda" de: "a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena". Pelo amor de Deus, gente. Eu já vi essa mensagem um milhão de vezes, essas piadas inúmeras vezes, e adivinha? Tudo no mesmo gênero. É só isso que a DC consegue nos entregar? Um filme que, ao invés de se tornar uma jornada divertida, com bons ensinamentos e que conquiste, entrega uma experiência maçante, genérica e que, daqui a anos, vai cair no esquecimento cinematográfico.
Não é só a coadjuvante que é esquecível, não; são todos. O vilão parece aqueles lunáticos que tatuam o corpo todo e focam sua vida em mudar o corpo para parecer uma criatura. Ele, juntamente com sua gangue e motivações são tão superficiais e básicas que não instigam ninguém. A personagem secundária não tem força e parece ter sido tirada direto do ensino médio. Jason Momoa está um pouco forçado, mas bem. Mas, porra, não tem tempo de tela, velho. E aí faz o quê? Aguenta a personagem secundária ficar se lamentando por aí enquanto a SuperGirl vai de lugar em lugar comprando briga, resultando em batalhas sem emoção e que lembram uma briga de cotovelos? Não fode, filme. A conveniência foi o que mais me irritou. Krypto, que nos dois filmes em que apareceu foi a melhor coisa, aqui é escanteado e guia uma trama apática e desinteressante. Ele não está em cena. Então, não tem pilar de carisma e nenhum personagem em específico que segure a barra desse estrume cinematográfico curador de insônias.
Os caras literalmente cometem o maior desrespeito que podem fazer com uma alienígena sobre-humana: colocam ela sofrendo para fracotes, tudo para não pisar no espaço da coragem que é retratar tamanha figura que tenha força de uma deusa. A menina só vai vestir o uniforme com símbolo de esperança no final do filme; antes disso, estava andando de cá para lá parecendo uma mendiga aqui do centro de Porto Alegre. O que poderia engrandecer, que são seus poderes, são tratados como espetáculo vazio, uma casca que não tem nada dentro, apenas para gerar boas poses e banners bonitos. A visão de laser? Parece aqueles ponteiros laser que viraram febre na adolescência de 2015. O voo? Tem cenas aproximadas para se desvincular do dramático de vez. É literalmente jogar o potencial da protagonista no abismo para dar voz a ruídos descartáveis. Como citei na Crítica Anterior, existem entretenimentos que sabem de si mesmos, apresentando uma sessão da tarde satisfatória. Mas aqui? Só relembram o quanto errar no tempero do cinismo pode transformar um passatempo primoroso em um desastre irritante. Até The Flash, tanto o de 2023 quanto a série que se conectava com outros universos, trouxeram uma SuperGirl mais emblemática e encantadora. Então seguimos à risca de não ter um filme solo que adapte bem a história da heroína voadora. Eu sei que há dificuldade em fazer uma história que se conecte bem com tamanho poder, mas não acho que a estilização do conto e uma jornada esquecível, genérica, de 1h40m sejam a solução. Sabe o que me parece esse filme? Um produto comercial que deve ser postado obrigatoriamente, para cumprir tabela e ajustar o universo de forma pífia. Talvez seja um aviso. Já que só fazem catástrofe, deixem esse universo de Krypton em paz, de uma vez por todas. Assim, é menos uma incomodação.
Outra coisa: o pessoal reclama do realismo do Batman do Nolan, mas lá tinha peso dramático que justificasse. Aqui? É um foco nas terras e no espaço sem cor; um filme sem cor, um filme feio. Um visual que tenta mirar nas cores neutras que realcem o ar, mas acerta na poeira cegadora horrenda; um realismo incomodativo que só deixa evidente mais uma covardia do filme e da própria indústria atual: a vergonha de ser cafona, a vergonha de abraçar o irreal com a fantasia. Tudo é um retrato de como seria ter essas figuras com poderes colossais em nossa realidade. As únicas cenas levemente confortáveis foram a adição do Superman, que conseguiu entregar um humor inocente e do cotidiano. Então, para resumir: 3 minutos de filme foram prazerosos; o resto? Uma tortura completa que eu desejo todo o mal de bilheteria e que merece o esquecimento eterno. Até o Seu Madruga entregou um ensinamento mais valioso sobre dar o troco no mal do inimigo... Dito isso: era melhor ter ido ver o filme do Pelé.
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