Ultraje tenta transformar a banda em um símbolo de irreverência do rock nacional, mas o filme deixa ainda mais evidente aquilo que muitos já apontavam: trata-se de um grupo que nunca teve identidade clara, nem como proposta artística, nem como discurso. A narrativa tenta pintar o conjunto como transgressor, mas logo esbarra no fato de que a banda não é — e nunca foi — antissistema. Pelo contrário, suas músicas frequentemente atiram na própria população que supostamente deveriam defender ou representar. O exemplo mais gritante é “Inútil”, que o filme apresenta quase como um hino de contestação, mas que na prática soa mais como um dedo em riste, culpando a própria sociedade por problemas estruturais.
A abordagem musical também não sai ilesa. O longa insiste em enaltecer composições que, vistas sem filtro nostálgico, são simples, repetitivas e pouco criativas, como “Ciúme”, que gira em torno de um refrão básico e melodia acomodada, sem camadas, sem ousadia. O filme tenta vender isso como genialidade do “rock bem-humorado”, mas o resultado é apenas a reafirmação de uma falta de profundidade artística que a banda sempre carregou.
Na parte biográfica, a obra tropeça ao tentar romantizar conflitos internos que, no fim, não revelam nada significativo sobre seus integrantes ou sobre o cenário musical da época. Falta densidade, falta contexto, falta algo que faça o espectador sentir que houve relevância histórica ali. Em vez disso, vemos uma sequência de episódios que reforçam a sensação de que a banda nunca soube exatamente a que veio: não inovaram musicalmente, não lideraram movimento algum, não deixaram legado consistente.
O filme, tentando transformar pouco em muito, acaba expondo ainda mais o vazio da proposta artística do grupo. A história é rasa, a música é limitada e a postura “irreverente” parece mais uma estratégia para disfarçar a falta de conteúdo. Ultraje acaba sendo, ironicamente, o título perfeito — não pelo choque, mas pela frustração de perceber que há muito barulho para pouquíssima substância.