Midsommar - O Mal Não Espera a Noite
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Gerson R.
Gerson R.

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5,0
Enviada em 30 de setembro de 2019
O ser humano é capaz de ser bastante influenciável se estiver em uma situação psicologicamente vulnerável – seja lá o motivo – um trauma, a ausência familiar ou até mesmo a falta de comunicação numa relação amorosa – o diretor Ari Aster (que surpreendeu a todos com seu primeiro longa ano passado, o terror Hereditário) utiliza todas esses fatores para ilustrar uma trama que envolve inúmeras referências, criticas e paralelos com males que nossa sociedade propaga – do extremismo religioso, a visão estereotipada e prejudicialmente “santificada” da mulher em nossa sociedade ou a hipocrisia moral que tomou conta de muitos nos últimos para cá, Midsommar torna-se uma viagem (e acho “viagem” uma palavra que define bem o caminho dos personagens da história) – ou, para ser mais preciso, uma “bad trip”, que leva a uma reflexão profunda sobre nossos costumes e a falta de expressão e empatia para reprimir sentimentos de ódio, maldade ou pura omissão diante do mal – seja ele sob qualquer forma.

Com uma atenção maior sobre a questão religiosa, o roteiro do próprio Aster traça um paralelo sobre os efeitos do extremismo sobre a jovem Dani (Florence Pugh), que acaba de viver um forte trauma emocional e está em um relacionamento em crise com o estudante universitário Christian (Jack Reynor) – o casal, tentando superar os problemas de comunicação, aceita o convite do amigo Pelle (Blomgren) e embarcam para uma viagem até uma região interiorana da Suécia, junto de mais dois amigos (Poulter e Harper) – ao chegarem ao local, logo notam que se trata de um vilarejo afastado, composto por pessoas que parecem seguir uma espécie de seita ou religião – com rígidos e estranhos costumes, durante o “sol da meia noite” do local, pois lá não há anoitecer. Dani acaba sendo a primeira a notar que algo estranho está acontecendo por lá, mas isso pode não ajudar muito o grupo de amigos.

Ajudado ainda por um elenco espetacular, composto por atores pouco conhecidos, o destaque fica por conta da talentosa Florence Pugh, que impressiona pela expressividade e a forma como representa as dores e aflições de seu coração e mente – Ari Aster se aproveita desta forte carga emocional para compor (sem exageros) um longa que expressa significados e metáforas praticamente em cada um de seus planos – logo de inicio, ele usa uma representação, em quadro, que, rapidamente, descreve as promessas de “falsos profetas” e moralistas de guela, que prometem levar as pessoas a uma “vida melhor” – ou a maneira que representa o sofrimento de Dani – como na forma que introduz a passagem de tempo para a viagem até a Suécia – com um corte genial do banheiro de um apartamento para o banheiro de uma avião – mesmo que com alguns significados óbvios – como ao filmar a estrada na qual os personagens viajam de ponta cabeça, indicando a inversão de supostos valores a seguir – tais sequências casam perfeitamente com a proposta do diretor – a riqueza de detalhes é tamanha que é necessário uma atenção redobrada para tentar captar tantas mensagens – que vão de simples reações de personagens – como quando Josh compara um comportamento de uma outra religião em tal assunto e o morador do local simplesmente o ignora, indicando a intolerância a outras religiões – ou coisas mais diretas, como uma placa na estrada que indica o preconceito com imigrantes – a própria ideia do local ficar sob a luz do dia o tempo todo é uma enorme referência a instituições que cometem erros (e até crimes) perante nossa sociedade e ficam impunes (as claras), sem precisar se esconder (as escuras, digamos assim) – impossível não pensar em políticos e suas ideologias radicais ou fanáticos religiosos, que impõe seus seguidores a situações ultrajantes, ofensivas, humilhantes ou perigosas – para dizer o mínimo. Sem falar que o longa retrata ainda a punição de quem discorda de tais imposições e o lado de quem tenta expor estes absurdos – ou, ainda, quem fica omisso diante de tais acontecimentos – como na forma que expressa o interesse em apenas fazer a tese para a faculdade dos personagens de Reynor e Harper, sem se importarem com a gravidade do que esta acontecendo – embora tal momento, onde os dois rivalizam o uso do tema para as suas teses, seja o único problema do filme, por inserir diálogos pouco inspirados e que pausam a narrativa brevemente.

Mas nesse aspecto temático ainda fica bem evidente a forma como Aster demonstra como as mulheres são vistas como uma espécie de “troféu” ou apenas objetos – a mercê das vontades dos homens – uma submissão que muitos tendem a classificar como “natural” ainda nos dias de hoje – assim como a questão da perda da virgindade feminina – como se as mulheres sempre precisassem de homens para serem felizes, conforme o machismo tenta impor – isso também inserido na maneira destrutiva como Dani encara sua relação inicialmente – e a tentativa de ajuda descaradamente querendo algo em troca, por parte de Pelle – alias, estas “falsas ajudas”, são representadas em alguns momentos de uma forma propositalmente caricata e engraçada – para mostrar que a tentativa de identificação com as pessoas é só uma forma de atrair “fiéis”, por exemplo. Também merece menção a forma como é mencionada a questão da “recompensa após a morte”, pelo destino de alguns personagens idosos – tornando a maneira que o longa expõe isso em meio a história como um impulsionamento narrativo – o elemento de suspense tirado destes pontos torna-se sufocante – dada a criação muito bem estruturada das personalidades de cada individuo da trama – totalmente bem estabelecidos no primeiro ato – e conduzidos de forma propositalmente lenta pelo cineasta – a ponto de captarmos bem seus estados emocionais e suas multifacetações – Aster utiliza simples distorções nas paisagens e cenários para representar as alucinações de alguns personagens e uma suposta falsa ligação deles com a natureza.

Alias, visualmente, Midsommar é genial: a direção de arte e o design de produção acertam lindamente na criação do vilarejo sueco – seja pela concepção estilizada e assustadora das casas de madeiras em meio a vegetação em volta do lugar, ou até mesmo pelo figurino bastante claro (indicando uma certa “santificação”) dos moradores – sempre rodeados por flores coloridas, que poderiam representar um tipo de pureza – e a fotografia de Pawel Pogorzelski compõe imagens belíssimas, escancarando ainda mais as cores dos ambientes – de escura e sombreada no começo, mostrando a casa de Dani ou o apartamento dos amigos de Christian, para ficar quase que chapada nos dois atos a seguir – utilizando com inteligência suas alterações de tons, conforme a gravidade do que acontece em tela – essa maneira mais clara de expor as situações também ajuda o filme a apresentar alguns efeitos de maquiagem bastante realistas e chocantes – sem efeitos digitais implausíveis.


Entre tantas metáforas e simbolismos, Midsommar é um filme extremamente importante para nossa realidade – ele mostra com perfeição os estragos que a alienação religiosa ou ideológica tem sobre as pessoas, que tendem a querer procurar as soluções mais fáceis para seus problemas na vida – seja para superação de traumas ou problemas conjugais – se esquecendo do básico e caindo em promessas infundadas – vindas de figuras ou questões morais distorcidas (no caso do longa, representado de uma maneira até literal) pelas próprias pessoas – ou seja, a inversão de valores ao qual nossa sociedade tem-se submetido, reflete a hipocrisia que muitos ressaltam todos os dias, principalmente entre aqueles que dizem querer a paz e o amor, mas pregam a violência e morte, sem ao menos notarem suas contradições – como diria Goethe, “nada mais assustador que a ignorância em ação” – algo tão atual e real que faz este trabalho de Ari Aster não precisar de nenhum “jump scare” ou recursos manjados do gênero para nos assustar. A realidade já é assustadora o suficiente.
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