"Joker" vem causando polêmicas e boicotes por conta de sua glorificação a violência, mas a verdade é que não existe glorificação, nem sequer é um filme pretensioso ou perigo como muitos dizem, é um filme de atos e consequências, com uma construção de personagem excelente e uma direção excepcional, sem contar a atuação mágica de Joaquim, "Joker" supera toda e qualquer desconfiança com seu fator artístico, é um longa que se utiliza da magia do cinema para contar uma história poderosa e poética.
O roteiro de Joker foi concebido por todd Phillips, cineasta que tem uma carreira toda voltada para a comédia, e isso faz o Toddy ter uma maior noção da construção de seu personagem, é claro, o diretor tem muita inspiração de filmes como "Taxi Driver", "O rei da comédia", "O operário" e até "Touro indomável" grande maioria dirigido por Scorsese-Que chegou a participar da produção do filme- e protagonizados por de Niro, que está no filme, ou seja, o jovem diretor está vem assessorado.
Apesar de ter todo um estudo cinematográfico do que queria fazer, "Joker" não tem um roteiro perfeito, mas passa bem perto disso, sua construção de personagem é profunda e lenta, e começa a partir de quebras, somos apresentados a um personagem com problemas e angústias e temos um primeiro ato focado em aumentar essas angústias e problemas, depois temos a absorção de uma espécie de transtorno social para enfim, em um curto terceiro ato, o coringa nascer, é uma construção impecável que brinca entre a fantasia e a realidade, essa linha tênue causa uma neblina na visão do telespectador que começa a ficar confuso sobre o caos social e o estado de espírito do protagonista, desse ponto de vista, entendemos um pouco Joker, um personagem quebrado pela própria sociedade que acumula mágoas, seu ímpeto não é raivoso, ele é um refúgio, ele vê sua sociopata como algo engraçado, uma transferência mórbida de sentimentos, sutis e profunda que ajuda a construir uma atmosfera de loucura e insanidade de maneira grandiosa, uma das melhores construções de personagens que eu ja vi.
Temos uma crítica ao abandono e ineficiência governamental a dar suporte a doentes e conter o caos social, a falha dos órgãos públicos cria uma cidade propensa a violência e caos fazendo a angustia de Joker se procriar mais facilmente, o abandono parental, a falta da figura paterna que é sentida fortemente pelo personagem ajuda o mesmo a ficar sem suporte e solto nessa imersão doente que todas as bases, sejam familiares ou sociais são ineficientes em conter seu ímpeto doentio, é uma crítica a nós e ao sistema que criamos.
Todd Phillips dá um show de direção, sabíamos que o cineasta tinha algum talento técnico, pois bem ou mal, a trilogia "Se beber não case" é muito bem dirigida, mas aqui ele vai além e muda completamente seu estilo de direção, sua câmera fica subjetiva e há uma mescla total de estilos, as vezes temos uma maravilhosa câmera de mão curiosa que fica espreitando a metamorfose do protagonista, outras vezes a cemera fica fixa e busca angulos mais ambiguos e abertos, a camera olha de lado, se aproxima, se afasta, é uma câmera que causa uma imersão total ao telespectador, diversas são as filmagens estranhas ao habitual que costumamos ver no cinema, captando pontos e ângulos diferentes do nosso protagonista, é como se a câmera tivesse medo do Joker, sempre contida e pouco focal, a fotografia é impecável, muito parecida com "Táxi Driver" temos uma fotografia esverdeada, melancólica e suja, é uma fotografia depressiva que compõe e da vida a angustia social de Joker, outros pontos são ótimos também, como o figurino e maquiagem, e claro, temos uma trilha sonora magnífica, meio teatral, aguda e alta que permeia todo o longa, uma trilha que tem cara de filme de terror, mas funciona muito bem aqui.
Todd Phillips coloca Joaquim Phoenix com a mão no Oscar, ao menos com uma indicação garantida, Joaquim faz mais do que uma mera encenação, ele entende seu personagem, vive ele e expressa suas angústias e frustrações com uma vivacidade assustadora, é uma entrega de personagem impressionante, o ator vive seu personagem mais do que apenas facialmente e psicologicamente, todo o seu corpo está moldado a agonia de Joker, seu estado físico em decomposição, suas anomalias, seu peso em caminhar, sua dificuldade em levantar a cabeça, temos uma entrega e uma atuação corporal e física também, é um mergulho completo no âmago do coringa, o ator ri de um modo assustador, mais que isso ele ri, e sentimos que ele está chorando, sua caracterização também está ótima, a não ser que algo extraordinário ocorra ainda esse ano, Joaquim Phoenix faz uma atuação impecável e uma das melhores atuações dos últimos anos. De Niro também está ótimo, é maravilhoso ver um ator tão importante e marcante para o cinema voltando a interpretar tão bem.
"Joker" foi muito hypado, isso é sempre prejudicial em um filme, mas ele consegue suprir as expectativas criando uma releitura de clássicos do cinemas adaptados e conjecturados em um personagem da cultura pop, uma imersão na violência, insanidade e magoa, um desafio ao isolamento social e ódio que cultivamos na sociedade deste sempre, tudo isso alinhado a uma ótima atuação e direção, o filme não é perfeito, telegrafa algumas cenas e em determinado momento subestima a inteligência do espectador, mas isso se perde em meio ao seu oceano de méritos, "Joker" não é um filme de herói e também não é para qualquer público, é um drama pesado, sobre melancolia e insanidade.
(Spoilers)= É difícil falar algumas coisas do filme sem entregar acontecimentos, por exemplo, sua dubiedade final, a onde fica em aberto se o Coringa matou sua psicologa, saindo dos seus critérios e te fato virando um psicopata ou não, além de deixar o personagem vivo para uma possível futura continuação, outros detalhes são magníficos também, a construção suja da cidade a onde em determinado momentos desafiávamos o fato e questionamos se a cidade é podre ou estamos vendo através dos olhos de Arthur, a onde tudo é sujo, a "dancinha" que Joaquim interpreta apos os primeiros assassinatos também são espetaculares, é um momento a onde Arthur encontra sua paz e começa lentamente a sua transfiguração.
outro ponto interessante, que já conversa com humor negro do longa, é uma piada, talvez a mais profunda do longa, que não é proferida pelo coringa, mas sim pelo diretor quando escala De Niro para seu filme, o diretor Todd Philips se espelha muito em diversos filmes, alguns deles são "Taxi Driver", "O rei da comedia" e "Touro Indomável" todos protagonizados pelo De Niro, a onde o mesmo interpreta um personagem quebrado que acha uma fuga na violência, Todd traz o de niro para o seu longa e o mata através de um personagem que sofre dos mesmos males, fora ser uma sádica piada, podemos interpretar como uma alegoria, a onde a violência finalmente voltou ao De Niro, outro ponto interessante, é que todos esses filmes são dirigidos pelo Scorsese, que fez parte da produção do filme.