Macbeth, O Poderoso Chefão e Game of Thrones se encontram no Rio de Janeiro
por Aline PereiraUm caso do acaso bem marcado em cartas de tarô dá início a uma sequência de acontecimentos trágicos, enérgicos, dramáticos e ironicamente cômicos em Os Enforcados, filme do diretor Fernando Coimbra – que repete a parceria com Leandra Leal quase uma década após O Lobo Atrás da Porta (vejam!) e dá à atriz um dos papéis mais deliciosamente caóticos de sua carreira. Com inspiração no conflito clássico de Macbeth, de Shakespeare, e uma lembrança ao clima de O Poderoso Chefão, o longa pode até deslizar na própria bagunça de vez em quando, mas se garante no estilo.
Os Enforcados acompanha a história do casal formado por Regina (Leandra Leal) e Valério (Irandhir Santos), uma dupla da elite carioca que, em meio à uma crise financeira, tem uma ideia perigosa para recuperar a boa vida. Valério faz parte de uma família que construiu um império do jogo do bicho no Rio de Janeiro, mas não está tão envolvido assim com os negócios e quer tentar vender sua parte para ficar com o dinheiro. É claro que os esquemas neste submundo ilegal não são tão simples: o plano do casal acaba saindo terrivelmente e os dois se veem envolvidos em uma teia insana de problemas.
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Embora o casal divida o protagonismo – e também uma boa química –, meu primeiro pensamento após a sessão foi sobre o trabalho de Leandra Leal. Sua personagem, Regina, é a mais complexa da trama porque nunca sabemos exatamente o que está se passando com ela. Acho que nem ela sabe até que se vê engolida demais pela situação para voltar atrás. É ela quem dá início à movimentação da trama de fato em uma cena carismática e intrigante com Irene Ravache, que interpreta a mãe dela.
Explicando o título do filme, a mãe joga cartas de tarô para a filha e tira a figura do Enforcado, cuja interpretação, é claro, abre espaço para as mais diversas conclusões. A ideia que Regina tira daí não só coloca em ação os planos do casal, como faz um bom paralelo “místico” com o que vem a seguir. Não consegui evitar comparar a personagem com a que Leandra fez em O Lobo Atrás da Porta, no sentido de que temos duas mulheres enigmáticas: o que é descontrole e o que é estratégia, assim como o que é escolha e o que são atitudes tomadas por falta de saída, se misturam e escalam.
Penso que um trabalho como esse exige sensibilidade dos artistas que o fazem: tanto Regina, quanto Valério se revelam e consolidam suas personalidades ao longo da história e quem eles de fato são e quais são suas intenções vêm em doses homeopáticas. De forma geral, falta à história mais solidez no mistério que se propõe, já que não é difícil prever o que vem pela frente, mas, mesmo quando não vem, há uma boa sensação de surpresa iminente e isso está ancorado na performance dos protagonistas e, como citei antes, na grande sensibilidade de Leandra.
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Na divulgação do filme, o diretor Fernando Coimbra citou a trama shakespeariana clássica de Macbeth que tempera sua história e, em entrevista ao AdoroCinema, citou o clima Game of Thrones que existe no submundo do jogo do bicho. São elementos bem marcados em Os Enforcados e quem tiver familiarizado com essas fórmulas vai se entreter ao vê-las funcionar neste suspense.
As pequenas e nem tão pequenas referências ao longo da história também são um ponto de destaque: do significado dos nomes dos personagens ao estado inacabado da mansão do casal e às alusões visuais que apontam o caminho que está por vir. Olhando para esses pontos, aliás, pensei em como a experiência internacional de Coimbra também se reflete em Os Enforcados.
Ao longo dos últimos anos, o cineasta trabalhou com a Netflix e a HBO na direção de episódios das séries Narcos e Perry Mason, além de ter dirigido o filme Castelos de Areia, estrelado por Henry Cavill, Glen Powell e Nicholas Hoult. Senti algo de hollywoodiano nas escolhas do cineasta tanto no ritmo da história, quanto no enquadramento de seus cenários e personagens no sentido que a história poderia se passar em qualquer lugar.
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É lógico que o universo do jogo do bicho da forma que conhecemos é algo profundamente brasileiro, mas a trama não parece interessada em desvendar essa questão propriamente dita. Com exceção de uma ou outra explicação sobre como funcionam os negócios da família de Valério, não há tantos detalhes que marquem essa cultura. A sorte é que é muito, mas muito fácil, acreditar que Stepan Nercessian, que interpreta o tio de Valério, é um bicheiro mafioso sinistro assim que ele surge em cena.
O longa vem em um momento em que o tema jogos de azar está em alta e faz uma relação entre o comportamento dos personagens e a ideia do “cidadão de bem”, citado pelo protagonista, mas não senti um DNA brasileiro em especial. Regina e Valério poderiam ser um casal de elite de qualquer lugar e o drama deles no envolvimento com negócios ilegais poderia funcionar em outros cenários que não o Rio de Janeiro.
Trata-se de uma história com grandes disputas de poder – financeiro, emocional, sexual, entre outros – com uma dinâmica que tem como foco a evolução e os dilemas de seus protagonistas. Assim, o cenário, ainda que traga elementos característicos de sua região, não tem presença tão marcante ou contextualizada.
Os Enforcados pode até se emaranhar um pouco no próprio caos, esticando momentos até o limite do convencimento de seus personagens, mas é uma boa história para fisgar quem assiste pela escalada insana de acontecimentos embaladas por personagens que não têm pressa de mostrar quem são – e eles são muita coisa.