Guilhermo Del Toro é um dos poucos cineastas atuais capazes de trazer uma história em tom fabulesco mesclado a um tema ou situações que refletem cruelmente nossa realidade. Diretor de obras marcantes como O Labirinto do Fauno e A Colina Escarlate, entre outras obras dignas de muita atenção, ele nos traz com A Forma da Água um misto de fantasia com romance e dramas que envolvem a auto-aceitação e o preconceito racial, étnico e social.
Logo nos primeiros instantes do longa já conseguimos notar essa mesclada de tons, do suave ao impactante, quando Del Toro mostra os hábitos matinais de sua protagonista – no caso, o ato de se masturbar em uma banheira – que funciona ao mesmo tempo para representar um desejo tão comum do ser humano, que parece ser tratado com reprovação por alguns – nisso, nos apresentando Elisa - vivida por Sally Hawkins, ela é uma mulher que perdeu a fala devido a um acidente na infância e, trabalhando na limpeza de um laboratório de pesquisas cientificas do governo norte-americano nos anos 60, acaba conhecendo uma estranha criatura (Jones), pela qual passa a se sentir atraída – mas os interesses em examinar cruelmente o ser pelo perigoso investigador Richard (Shannon), coloca em risco a relação de Elisa e, também, a vida do “Homem-Anfíbio”. Contando com a ajuda de seu amigo Giles (Jenkins) e de sua amiga de trabalho, Zelda (Spencer), Elisa começa a tramar um plano para libertar a criatura, que não pode ficar muito tempo longe da água.
Dentre a situação que poderia soar “absurda” para alguns – um humano se relacionando com um ser de outra espécie – o diretor (e também autor da ideia original e roteiro, junto de Vanessa Taylor) apresenta uma história que reflete diretamente inúmeros tipos de descriminação que nossa sociedade tanto exala – por isso, repare que todos os personagens tem problemas com relação à isso: Elisa é discriminada por não falar, a Zelda da sempre excelente Octavia Spencer é vitima do racismo – além de ser obrigada a aguentar o machismo que lhe é conferido em casa (pelo marido folgado) e no serviço – o Giles do também ótimo Richard Jenkins também precisa se “esquivar” do preconceito por sua orientação sexual e até mesmo o arrogante e (pasmem) preconceituoso Richard – em uma atuação formidável de Michael Shannon – também acaba sendo um sujeito vitima de um sistema injusto que a sociedade acaba impondo – afinal, ele é regido apenas por tentar ser bem aceito pelo general Hoyt (Searcy), que não hesita em afirmar que é necessário ser “mais do que decente” para trabalhar para o governo – algo que ocorre em outro grau com o personagem de Michael Stuhlbarg, um espião russo disfarçado de cientista, mas que não suporta ver as atrocidades contra a criatura capturada, indo contra seus princípios científicos – tudo isso, dando a cada personagem perfis bastante multifacetados, deixando-os bem longe de serem previsíveis em seus comportamentos e atitudes.
Mas nada disso seria crível caso o alicerce central do filme não funcionasse – e esse “alicerce” chama-se Sally Hawkins – vinda de papeis mais simples em filmes como Godzilla e Paddington, a atriz tem uma difícil missão: se comunicar e se expressar sem falar – algo que não é para qualquer ator – indo além da linguagem dos sinais, Hawkins demonstra com seus olhares e expressões faciais (além de seu corpo) toda a repressão que sofre e, ainda assim, o desejo de querer se libertar deste mundo opressor à ela – seu olhar ingênuo, mas que carrega a vontade de reagir contra os homens terríveis ao seu redor, é ainda eficaz para demonstrar seu fascínio pelo Homem-Anfíbio, que, ao contrário dos humanos, não a descrimina ou a deixa de entender por apenas ela não ser capaz de falar – afinal, não deixa de ser interessantíssimo como ela, que não fala, se torna a primeira pessoa a conseguir se comunicar com a criatura – que, vivida por um super maquiado Doug Jones, é um dos seres mais bem criados nos últimos anos em hollywood, principalmente, pelo fato da opção do diretor em exigir efeitos práticos, ao invés de recorrer ao pouco atraente CGI – lembrando um dos personagens de O Labirinto do Fauno, é claro.
Com um visual extremamente bem elabora em seu design de produção, a fotografia do filme também tira proveito direto para exprimir todo o tom triste que seus personagens passam – o apartamento de Elisa e Giles, acima de um cinema, com seus corredores escuros e paredes sujas, mesclados com uma sala de estar cheia de pinturas, que automaticamente expressam um desejo de mudar ou sair deste mundo – ou a concepção extremamente fria do grande laboratório do governo, sempre refletindo um tom de verde escuro que nos remete a insalubridade e, da mesma forma, o tanque onde a criatura se vê presa – tudo isso passando uma ideia de que água é algo necessário para melhorar tais “impurezas” – evidentemente, uma representação do amor – tal aproveitamento se dá também com o trabalho de efeitos sonoros, especialmente com os grunhidos do ser aquático ou para serem aplicados nos momentos de suspense – envolto da ótima e delicada trilha-sonora de Alexander Desplat.
São todos esses detalhes que mostram a riqueza criativa do diretor – conseguindo de maneira bonita, simpática (sem apelações) e emocionante transmitir como um sentimento como esse é tão banalizado por muitos – talvez isso, sendo o principal motivo de todas as discriminações étnicas, raciais e sociais que nos deparamos – mostrando que o amor existe e atua sob qualquer forma – tão essencial quanto a água para nos mantermos vivos, de fato. Poucas vez que uma fantasia soou tão real em um filme.