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    7 Dias em Entebbe
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    7 Dias em Entebbe

    A ordem dos fatores

    por Bruno Carmelo

    Este drama parte da vontade de estabelecer equilíbrio entre dois lados de um conflito. No embate histórico entre Israel e Palestina, José Padilha busca dizer que os ambos têm suas razões, ambos cometem excessos, ambos apelam para a violência às vezes. Partindo do episódio verídico em que uma guerrilha pró-Palestina sequestrou um avião cheio de israelenses, em 1976, para negociar a liberação de presos políticos palestinos, o projeto sugere que os dois lados foram movidos por crenças, paixões e impulsos políticos equivalentes, porém aplicados a lados distintos da equação.


    O princípio é louvável pela manifestação de empatia sem fomentar desavenças nem apontar culpados. Por esta razão, 7 Dias em Entebbe assume uma aparência quase fria, protocolar. Este é filme de ação, não no sentido de possuir cenas de ação em grande quantidade, mas de ser movido unicamente por elas. O roteiro, com seus letreiros, datas e decisões, apresenta uma sucessão pragmática de fatos, como um relatório do que ocorreu naqueles dias: o grupo efetuou o sequestro, o governo israelense não quis reagir, depois concordou, então apareceram desavenças entre os sequestradores etc. Se fosse um texto, seria repleto de verbos e pontos finais, mas com poucos adjetivos, advérbios ou conjunções.

     

    A psicologia dos personagens é abordada de maneira apressada. Os personagens principais de cada lado, Wilfried Böse (Daniel Brühl) e Brigitte Kuhlmann (Rosamund Pike) entre os pró-Palestina, e o ministro Shimon Perres (Eddie Marsan) representando o lado israelense, hesitam algumas vezes no uso da violência, na necessidade de intensificar a ameaça caso o lado adverso não corresponda. No entanto, limitam-se à existência dentro deste episódio: jamais entendemos o que aquelas pessoas pensam ou vivem fora deste conflito epidérmico. A tentativa pontual de estudar a fragilidade de Brigitte, na cena do telefone quebrado, rumo à conclusão, beira o cômico de tão desajeitada.


     


    De fato, o projeto não é afeito a sutilezas, como atesta a sua galeria de passageiros acessórios, cada um cumprindo uma função: as duas criancinhas para despertar simpatia, a senhora idosa que sobreviveu aos campos de concentração, o francês confundido com espião, o piloto boa-praça servindo de ponte entre vítimas e sequestradores etc. Cada um é definido pelo interesse que pode acrescentar ao conflito. Mas dificilmente o espectador lembrará o nome de qualquer um deles no final da sessão.

     

    Eles valem como coeficiente para criação de suspense, bem orquestrado pela montagem nervosa, pela trilha típica de thrillers hollywoodianos, pela explicação quase escolar dos fatos. Padilha troca os traços autorais pela ambição de clareza: seu filme é de fácil interpretação política mesmo para pessoas que nunca ouviram falar no conflito Israel-Palestina. No entanto, soa como um projeto de linguagem e sensações padronizadas, comum dentro dos moldes da indústria americana.

     

    Embora não se percebam muitas nuances no retrato, pelo menos existe a interessante busca por uma metáfora, através da dança contemporânea. 7 Dias em Entebbe confere um espaço importante a um espetáculo criado por Ohad Naharin, e bem retratado no documentário Gaga - O Amor Pela Dança. Esta peça israelense, simbolizando os conflitos militares do país, possui um ritmo vibrante, muito útil à edição. No clímax, talvez a montagem de Daniel Rezende se perca um pouco ao tentar mostrar tantos pontos de vista em paralelo: dos dançarinos, dos sequestradores, das vítimas, do governo israelense. Pelo menos, a comparação da guerra com sua representação artística dilui o aspecto fatual do filme. Esta é a mais bela ideia do projeto.


     


    Mesmo assim, ela não deixa de ter o seu efeito perverso: ao destacar uma obra de arte israelense, durante uma ação de resgate de Israel, a edição coloca a vitória dos soldados judeus em paralelo com o desempenho impecável dos dançarinos. Quando a plateia aplaude os artistas, a montagem sugere que são os soldados que de fato recebem a ovação. Enquanto isso, curiosamente, nenhuma autoridade palestina é evocada. Na conclusão, de mesmo modo, os palestinos são esquecidos para se destacar a consequência do episódio na política israelense.

     

    O filme adota, enfim, um ponto de vista, porém discreto, contido, misturado ao caos dos tiros, do sangue, da dança. Seria compreensível e mesmo desejável que Padilha assumisse claramente sua postura política – digamos, se fosse à esquerda como Ken Loach, à direita como Clint Eastwood, ou pertencente a qualquer outra nuance. No final deste relato, após a tentativa de equilibrar os dois lados e se mostrar imparcial, o pendente pró-Israel se revela pouco sincero, como uma mensagem subliminar, uma espécie de conclusão obtida após analisar friamente os dois lados, e não uma hipótese que os responsáveis já tinham desde o princípio.

     

    É muito diferente dizer “Acredito que este lado está correto; vou lhe mostrar o porquê” e dizer “Analisei os dois lados igualmente, mas no final das contas, ficou clara a razão de um deles”. A primeira postura parte do posicionamento político para chegar às provas; a segunda parte de provas para chegar num posicionamento político. Um destes discursos corresponde ao do militante, o outro, o do juiz. Existe uma diferença muito grande entre a ordem dos fatores.

     

    Filme visto no 68º Festival Internacional de Cinema de Berlim, em fevereiro de 2018.

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    Comentários

    • Jaime Oliveira
      O filme trata o casal de terroristas alemães como humanistas (sequestram, confinam e matam judeus mas nazistas são os outros), isso por si só já é patético, trata um ditador sanguinário como um bonachão carismático (a execução de Dora Bloch por parte deste foi simplesmente omitida do filme) e a critica do site ainda tem a cara de pau de falar que é um filme pró Israel.
    • Adriano Modesto
      Qualquer obra que tente mostrar que existe dois lados ou razões equivalentes num crime hediondo como um sequestro de mais de 200 pessoas não passa de um clichê panfletário ideológico e flerta com o terrorismo, como se houvesse justificativas para ele. Filme muito ruim, além de tudo.
    • Fernão Rosas
      O Padilha esquerdopata não é novidade, mais o Padilha Pai de Santo é. Como ele pôde saber como e o que disseram Brigitte Kuhlmann e Wilfried Böse em Entebbe? Ou mesmo os outros terroristas palestinos? KKKKKMas vou deixar pra lá os mais de uma dezena de erros de fatos históricos grosseiros que Padilha deixou pra lá(e isso foi para os dois lados), como a morte (assassinato) de Dora Bloch não ter sido por causa do raid israelense e sim pelo ditador Idi Amin enquanto estava no hospital de Kampala. Filme ruim feito por um diretor pior ainda.
    • Tim Meme
      Esse filme parece a Suíça de tão neutro parece um feel good movie sobre uma questão bem desagradável.
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