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    A Viagem de Meu Pai
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    A Viagem de Meu Pai

    O homem excêntrico

    por Bruno Carmelo

    O ponto de partida desta comédia dramática é uma peça de teatro, “Le Père”, que se passa num único espaço, com apenas três personagens. A versão cinematográfica, no entanto, lembra a adaptação de um grande romance, com dezenas de personagens, idas e vidas no tempo, vários espaços e símbolos com os mais diversos significados.


    A Viagem de Meu Pai - FotoO cartaz e o título nacional podem remeter a um road movie, mas a narrativa aborda justamente a imobilidade. Claude Lherminier (Jean Rochefort) é um homem de 81 anos de idade, que mora sozinho com a ajuda de enfermeiras. Teimoso e agressivo, ele recusa a ajuda das pessoas ao redor. Sua filha Carole (Sandrine Kiberlain) tenta assisti-lo, mas o pai pensa apenas em outra filha, Sarah, que nunca vem visitá-lo.

     

    Para explicar a estrutura psicológica deste homem com perda de memória, o diretor Philippe Le Guay adota uma narrativa no mínimo ambiciosa. Acostumado às comédias lineares, como Pedalando com Molière, o cineasta acrescenta desta vez flashbacks da infância marcada pela guerra, uma montagem em paralelo entre a viagem frustrada para Miami e cenas do presente, além de diversas elipses com as enfermeiras que se sucedem.

     

    Na dilatação temporal excessiva, entretanto, A Viagem de Meu Pai perde sua precisão. Enquanto a montagem efetua contorcionismos para amarrar as pontas soltas, alguns personagens entram e somem de cena sem grande construção, relacionando-se com uma dezena de metáforas (o suco da Flórida, as palmeiras, o relógio, o carro antigo) que se repetem sem necessariamente se desenvolver. Atrizes excelentes como Anamaria MarincaEdith Le Merdy roubam a cena nos poucos instantes em que aparecem, mas logo são substituídas por algum instante no futuro, quando não existem mais. Ao invés de ser um filme sobre a lembrança, este é um filme sobre o esquecimento.

     

    A Viagem de Meu Pai - FotoApesar da galeria preciosa de coadjuvantes, a narrativa é comandada por Jean Rochefort. O grande ator pode ser exagerado se não tiver as rédeas firmemente controladas pelos diretores, e no caso, Le Guay parece dar carta branca ao ator. O resultado é um histriônico one man show, cativante em alguns momentos, mas cansativo ao longo de 110 minutos. Diante das caretas, gritos e gesticulação excessiva, pelo menos Sandrine Kiberlain equilibra a dinâmica com uma atuação contida.

     

    Ao final, A Viagem de Meu Pai constrói uma bela relação entre pai e filha, respeitando as dificuldades e dores de cada um dos dois. Carole nunca é criticada pela postura diante de Claude, enquanto este também não é julgado negativamente pela manipulação afetiva efetuada com as pessoas ao redor. A relação de afetos entre os personagens e a direção torna o filme agradável, mas seria melhor se o conjunto fosse despido de tantos maneirismos e viagens no tempo.

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