"A Chegada" é, antes de mais nada, um filme espiritualista. O espectador, enganado por um marketing de ficção-científica no gênero blockbuster é premiado com uma obra existencialista. As primeiras cenas já revelam uma experiência dramática e pessoal que vai influenciar nos acontecimentos da história principal. A dor da perda, o sofrimento humano e dificuldade em conviver com o desconhecido são os elementos básicos que sustentam a atmosfera do filme.
A história não tem novidades. Nos dias atuais, OVNIS chegam a 12 diferentes partes do planeta espalhando pânico na população mundial. Sem causar qualquer tipo de interferência ou manifestação, os objetivos inertes e silenciosos provocam medo e desconfiança. Quem são eles? De onde vieram e por que estão aqui são as perguntas cujas respostas todos os governos do mundo querem saber.
Mas o que é captado pelos exércitos são apenas ruídos, falhando quaisquer tentativas de comunicação. Para resolver o problema, o governo norte-americano recruta os serviços de uma especialista em linguística. A Doutora Louise Banks, interpretada com maestria pela atriz Amy Adams, é incumbida de estudar a linguagem alienígena e encontrar uma forma de comunicação que descubra as respostas para o medo coletivo.
Para ajudá-la, os militares recrutam o físico teórico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que possui uma visão diferente da doutora. Ambos terão que decifrar as estranhas mensagens dos visitantes. O primeiro contato entre os dois já define o embate que vai dar tom ao conflito. "A língua é o alicerce da civilização, a cola que une as pessoas, a primeira arma sacada em um conflito" provoca o matemático lendo uma frase de um livro publicado por Louise. A frase é ótima, mas está errada, diz ele, justificando que "o alicerce não é a língua, mas a ciência". Ao revelar que fez uma lista de perguntas científicas, pois quer saber se "eles" viajaram na velocidade da luz, a doutora rebate com sabedoria: "Que tal apenas conversarmos antes que resolvam problemas de matemática?".
É esse diálogo inicial que vai nos mostrar que até mesmo as mais simples conversas entre civilizações podem gerar o conflito da dúvida.
A relação entre humanos e seres extraterrestres não é novidade no cinema. Stanley Kubrick tratou o assunto em "2001: Uma Odisseia no Espaço", Steven Spielberg fez uma versão mais leve com o seu belo "Contatos Imediatos do Terceiro Grau" e o diretor Robert Zemeckis tratou o mesmo tema em "Contato".
Denis Villeneuve, diretor de "A Chegada", que parece inspirado na estética de Terence Mallick em "A Árvore da Vida", preferiu discutir o tema num outro patamar. Através de uma experiência pessoal, o roteiro de Eric Heisserer nos leva a reflexão da experiência coletiva.
"A Chegada" é um filme denso, poético e que remete o espectador a analisar a natureza da vida. E a vivência da doutora Louise é a chave para a descoberta. O que os visitantes têm a dizer, num primeiro momento, somente ela poderá "sentir". O espectador, entretanto, é convidado a interpretar a mensagem humanista do filme que pode mudar o destino do planeta. Este é o trunfo desta obra que ainda vai provocar muita discussão. E o diretor Villeneuve abusa das mesmas dificuldades de comunicação para oferecer ao público a experiência única de sua própria interpretação.