Filme incrível. Ponto.
Dito isto, podemos avaliar os detalhes: A Chegada é um suspense de ficção científica muito inteligente que foge de todos os filmes do gênero. Nada de ETs carnívoros, nem raios lasers, nem poderes telecinéticos. O conceito em si já é genial - aliens que, ao invés de nos dominar/estudar, vêm pra pedir nossa ajuda, em um acordo bilateral.
O tempo não é linear. Lembre disso.
O diretor propositalmente nos faz pensar que as primeiras cenas dizem respeito à um passado longínquo, mas na verdade são cenas de um futuro possível. Ou melhor, o filme explode com a dicotomia antes/depois! O futuro na verdade é o passado em algumas cenas, como no crucial diálogo com o líder chinês.
O filme explora o tempo como nenhum outro, pautado na linguagem como metáfora e metonímia. Quem nunca aprendeu a conjugação verbal no português ou o "present continuous" no inglês? Usando essa metáfora, e muitas outras, somos traídos e surpreendidos positivamente pelo enredo. É um deleite pra quem tem repertório intelectual pra sacar todas as informações.
Villeneuve já é o maior diretor de suspense da nova geração, talvez um dos maiores de todos os tempos nesse gênero, pois consegue aliar histórias lindas e filosóficas com uma estética narrativa ímpar, volúvel e fluída entre cada uma de suas obras, mas com uma "assinatura genética" que o identifica. Por exemplo, nesse filme ele consegue fazer da própria estrutura narrativa do roteiro um elemento de ressonância da mensagem explicita do filme. Simplesmente impressionante.
Ainda, a fotografia é esplêndida, grandiosa e imponente tal qual a ideia da visita alienígena, usando muito da neblina e a luz que não consegue transpassa-la (novamente uma metáfora visual sobre o tempo e nossa incapacidade de ver através do presente), e uma trilha sonora perfeita.
A Chegada só peca em um único aspecto: a falta de paciência pra explorar seus personagens secundários. O filme foca tanto na doutora e deixa seu par romântico, o general, e todo o exército de fora, restando à estes a execução de ações maniqueístas ou pré-formatadas, como "o general burro e malvado que só cumpre ordens", ou "o cientista que ao invés de trabalhar está mais preocupado em pegar a mulher bonita". De fato, a contribuição do personagem masculino é nula, nem dá pra entender ao certo o que ele estava fazendo lá.
Mas esse é apenas um detalhe comparado a magnífica execução deste trabalho cinematográfico.