A vontade de Lars von Trier era que a história de Joe fosse um filme de quase cinco horas, porém os produtores não gostaram da ideia e o dividiram em dois. Ele ainda teve que, mesmo contrariado, aceitar cortes em cenas que acharam fortes demais em termos de sexo. Mesmo acontecendo isso tudo, mesmo que percebendo o corte abrupto do final do primeiro filme, o Vol.2 consegue mostrar o quanto von Trier estava certo em não querer dividir, pois o filme é claramente uno e ainda sim é mais um grande acerto na filmografia do diretor.
Joe continua contando a Seligman sobre sua vida. Ela é ninfomaníaca e desde o início da história pediu que Seligman escutasse sem julgamentos. Terminamos o Vol. 1 com o desespero de Joe ao descobrir um problema em si mesma. Agora sua história fica muito mais dura e pode ser que nem todos espectadores consigam não julgá-la.
Lars von Trier que também é o roteirista consegue contar uma história que apesar de ser explicada demais por Seligman levanta questões interessantes. Como levantada pelo próprio Seligman, Joe tem ações que nada se falariam se fossem um homem ("Era uma mulher exigindo seus direitos"). Acaba por mostrar à sociedade machista em que vivemos. Joe tem um problema e é obvio. Se fosse um homem o mesmo seria dito, mas o fato é que muitos iriam achar um comportamento normal para os padrões do sexo masculino. Joe não queria nada além de sexo. Quem quisesse fazer sexo com ela faria. Digamos que ela escolhia seus parceiros e os tinham na mão. Enquanto os homens achavam que estavam no comando, na verdade ela estava no controle.
Pelo o que aconteceu no fim do Vol. 1 Joe busca algo a mais. E assim como uma droga a necessidade por sexo só tende a aumentar, chegando em um ponto que o prazer tem que ser alcançado de forma estúpida e bruta. Quando chega nesse estágio o senso de certo e errado se perde completamente. Testemunhamos atitudes que nos deixam com o coração na mão, mas não podemos julgá-la por seus atos. Joe pede que não haja julgamentos, porém fica cada vez mais difícil para o espectador. Isso passa a ser interessante, pois até que ponto devemos intervir em seu livre arbítrio. Difícil, mas essa questão é válida e nos faz refletir o quanto julgamos no dia-a-dia.
A passagem do tempo na história parece não ser tão bem feita, mas para isso tenho a opinião de que o filme, à medida que, Joe vai contando, é Seligman que reproduz as imagens da maneira que ele quer e então a passagem de Joe jovem para Joe adulta e o mesmo com Jerome, é fruto de como Seligman enxerga os fatos. Até o final sugere um pouco quando von Trier filma com a tela escura.
Ao chegarmos ao final Lars von Trier sugere a vontade de dar um fim a uma sociedade hipócrita, falsa, que diz ser um, mas que na verdade é outro. Um filme muito bom apesar de ter um excesso de metáforas guiadas por Seligman, porém com um discurso com uma essência interessante.