Completamente inovador, puro e fundamental a quem gosta de cinema. A qualidade das imagens não é das melhores, mas a proposta é magnifica. Em uma geração em que tudo no cinema novo é tratado com pudor ou como comédia esdruxula, Tatuagem vem mostrar o que há de mais lindo em uma relação: a ligação. A sexualidade aqui não é sequer comentada. Na Recife que sofre com a Ditadura Militar, um pequeno grupo de teatro (Chão de Estrelas) traz um respiro de arte subversiva. Nada é como deveria ser. Clécio, líder da trupe, tem um relacionamento com a complicada Paulete. Tudo parece lindo, com esse mundo sem regras e na filosofia de amor livre. Até a visita de Fininha (cunhado de Paulete), um jovem do exercito. Rapidamente Clécio se apaixona e tudo começa a complicar para a Trupe, para Paulete e para ambos. Papéis se invertem e a Liberdade tão proclamada passa a não fazer muito sentido. Com tudo isso, a chance de errar é muito grande, mas Hilton Lacerda (Capitães de Areia), não se permite, escolhe seu elenco a dedo. Encabeçado por Irandhir Santos, que faz um Clécio humano em plena transição, por Gabriel Garcia que nos mostra uma Paulete estelar. No maior estilo "Diva" e por Jesuíta Barbosa, que mostra seu Fininha transitando entre o sonho do "Chão de Estrelas" e vida nada fácil no quartel. Tatuagem é sem dúvidas, um dos melhores lançamentos do ano mesmo com pouca qualidade técnica. Somente pela linguagem, pela proposta e pela postura. Há cenas de nu frontal, há sexo entre homens, há a "dança do cu", mas tudo faz parte do mundo da Trupe e da vida de seus personagens. Nada é exagerado, nada é forçado. Sutil e fundamental definiriam muito bem Tatuagem.
Belas atuações de Rodrigo Garcia, Irandhir Santos e Jesuita Barbosa num filme que erroneamente valoriza mais o c* que qualquer outra coisa. Vários temas interessantes preteridos em prol de uma piada exaustivamente repetida.
Uma tatuagem marca o corpo de forma duradoura e não aparece do nada, pelo contrário, exige uma passagem de dor, mesmo que depois surja como efeito de prazer. Tão discutido em dias de valores e de direitos humanos, esse complexo corporal aprofunda certas cicatrizes no bom filme de Hilton Lacerda. Pode até ser clichê mostrar o nu ou inferir deboche aos valores burgueses pelo militarismo, pela religião ou pela família tradicional; o importante é perceber que a discussão não sai de "moda", ao contrário, parece mais necessária do que nunca, basta observar e ouvir as tendências conservadoras que parecem gritar do fundo de seus buracos vazios e autoritários. O sistema está aí e deixa entrever que ditaduras são sempre bem vindas. Isso me faz recorrer ao excelente "Ensaio sobre a Cegueira", quando Saramago mostra que nunca é tarde, em tempos atuais, saber que um grande olho branco paira atento sobre tudo e todos. E só ver os chamados regimes tradicionais políticos, sejam de direita ou não. O que se pode ver, enfim, na marca que se faz no corpo é o direito de pintá-lo ou exibi-lo sem a deformação inoperante do autoritarismo. Por isso, vejo "Tatuagem" como uma grande metáfora da desforra que precisa ser impressa em tempos que parecem sombrios. Todo cuidado é pouco.
Tatuagem definitivamente não é um filme para conservadores, não é um filme para mim, mas não tiro alguns dos seus méritos. Bons atores, bom roteiro, boa fotografia, blá blá blá.
Através de uma ótica da esquerda o diretor Hilton Lacerda aproveita para colocar no hall do deboche a tradição, a família, o autoritarismo, o militarismo e o cristianismo, de uma vez só. Não tiro o direito dele, mas, deboche por deboche eu também tenho dos meus. Eu poderia rir sobre o paradoxal impacto questionador e subversivo de um filme supostamente com valores anti-establishment com financiamento estatal (R$ 2.200.000), mas não quero me pautar nisso. Só quero provocar! Desculpe Hilton, você está mais para establishment do que para anti-establishment.
O filme respira modas burguesas da esquerda caviar metida a popular, debulha sobre a política do corpo Foucaultiana (esse pensador tão prestigiado nos meios uspianos), fala sobre a libertação através do sexo, etc.
Toda essa aura "modernete" é representada no "Chão de Estrelas", um grupo de artistas fictício que realiza shows repletos de deboche e com cenas de nudez e que, como bem analisou Roger Lerina do Zero Hora, não passa de uma mistura de tropicalismo de Hélio Oiticica, o Teatro Oficina dionisíaco de Zé Celso Martinez Corrêa, a ripongagem dos Novos Baianos, o cinema de guerrilha em Super-8, o despudor crítico do grupo teatral Dzi Croquettes, o filme A Lira do Delírio (1978), de Walter Lima Júnior, enfim, tudo isso.
É uma piração Oswaldiana, carnavalesca, infantil, celebra a negação dos valores, o sexo e a preguiça como chaves para um mundo de felicidade plena, em oposição a toda aquela parafernália civilizacional da tradição, que é fundada no recalque (veja as cenas das velhas, repare no tom de morbidez) e na repressão (nada como utilizar de militares que são homossexuais enrustidos).
Não vou me alongar sobre a infantilidade disso. Estaria mudando o foco. E, por incrível que pareça, não estou nervoso! EU ATÉ DEI NOTA 3 PARA O FILME! Obs: Mania de achar que conservadores estão sempre emburrados. Mas chamar esse filme de ousado! Sério? Por que mostra pintos? Isso, na verdade, é um baita de um clichê! E desde quando, no cinema, tratar velinhas conservadoras com escárnio é algo novo? 1960? 1970? Isso é uma baita de uma mimese repetida no cinema há uns 40 anos. Esse filme seria ousado em outra época, não na nossa!
O filme Tatuagem constrói a veracidade sobre o cotidiano de artistas desconhecidos em uma das capitais do nordeste do Brasil, no ano de 1978, uma época de "caça às bruxas", que era a repressão a toda e qualquer forma de demonstração de liberdades individuais; ademais, através da "linha-dura", no Brasil, o regime militar (1964 - 1985) impedia qualquer forma de oposição. Em virtude disso, é preciso assistir a ele para apreciar as cenas que explanam a verdade nua e crua, literalmente, do que era oculto ou mascarado na sociedade pernambucana. Portanto, a medida que o filme é um autêntico "tapa na cara" contra o falso moralismo de vários tipos de corpos sociais, há a demonstração de liberdade da busca do viver em simplicidade com graça e reverência.
Muito bom, vale a pena conferir, mas vá preparado para ver cenas fortes. Tem um mix de tudo, humor, sacarsmo, erotismo, poesia, enfim, uma dose de profissionalismo e entrega total por parte de todos os atores...
Pelas críticas, pensei que fosse ser um filme denso, com diálogos profundos. Mas não é. O filme é raso, embora pretenda ser diferente. Achei o texto vazio. Tem algumas cenas bonitas, sobretudo quando a camera é alterada para um "tipo retrô". Não sei como fala. A atuação dos dois personagens principais é excelente, mas a do "Fininho" é fraca. Dá para passar o tempo, mas não recomendo se tiver outras opções!!!
O filme foi elogiadíssimo e ganhou diversos prêmios, mas achei o filme chato e demorado em diversas cenas supérfluas, como as dos shows do cabaré, e que não tinham relação direta com o que é “vendido” na sinopse do filme (o romance entre um ator e um jovem militar). É por essas e outras, que eu realmente não posso me considerar um cinéfilo…
Há uma pretensão narrativa em Tatuagem que é pouco alcançada ao longo do filme, e como bem disse o comentário abaixo: o filme seria perfeito se fosse tão bom quanto o marketing em torno dele. Não que o longa pernambucano deixe pontas soltas ou tem algum defeito na história, não é isso. O problema, pelo menos comigo, está no que diz respeito ao espírito contraventor que Hilton Lacerda quer imprimir em seu filme, de tal forma, que, certas coisas soam equivocadas, ou exageradas; colocadas na tela apenas para dar o choque em sua plateia. É evidente que esse amor à arte contraventora caminhe de mãos dadas com a desordem e o caos visual, visto que o filme conta a história de um grupo performático no meio da ditadura militar, mas, dado o anseio de criar um retrato que sirva como um pequeno pedaço de anarquia em meio a tanta repressão, tudo isso soa um tanto quanto inoportuno, e até deslocado.
Talvez essa impressão seja causada por causa do cineasta nunca se decidir qual história quer realmente contar: se a desse grupo teatral, ou a história de amor entre Clécio e Fininha, que, mesmo que seja desenvolvida de uma forma muito sutil e convincente - o jogo de sedução entre os dois dura apenas duas cenas e é mais do que suficiente pra pontuar o fascínio que um adquire pelo outro -, acaba ficando de lado em diversos momentos uma vez que o roteiro, possivelmente por querer intensificar o caráter transgressor do conjunto liderado pelo personagem de Irandhir Santos, parece ter receio de focalizar o casal e deixar os coadjuvantes de lado.
Esse casal, que aliás, é muito bem interpretado por Irandhir e Jesuíta, ambos em perfeita sintonia, é o responsável por manter a atenção ao filme sempre ligada. Tanto na iminência do encontro, quanto anos depois, a história de amor não perde o fulgor e faz um contraponto interessante com todo aquele universo que habita ao redor dos dois. Como na cena que justifica o nome do filme, que alterna com momentos divertidos de uma das apresentações da trupe (apesar de ser extremamente desnecessária a inserção das cenas gravadas de forma amadora).
Poucas vezes eu vi um filme que exaltasse tanto a homossexualidade, num sentido bastante positivo. Tem de tudo ali, de uma personagem sensacional que, apesar de achar-se uma artista violadora das morais e bons costumes, é a verdadeira representação da inocência, até um número musical que exalta o sexo anal como fator que traz individualidade e coletividade ao ser ao mesmo tempo (tem cu, tem cu, tem cu). Dentro do Chão de Estrelas, o livre exercício do amor é algo tão natural, corriqueiro até, que parece até uma sociedade à parte. E um filme que consegue criar um universo de forma tão autêntica, definitivamente não é pra deixar de ser visto. Porque, apesar de todas as ressalvas com o desenvolvimento desse argumento principal, as intenções do filme são tão genuínas que é bem difícil desgostar de tudo aquilo.
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