Sequência do estrondoso Capitão América — 2: O Soldado Invernal (2014), os irmãos Anthony e Joe Russo voltam para fechar a trilogia com Capitão América: Guerra Civil, mas não conseguem inovar no Universo Cinematográfico da Marvel Estúdios como haviam feito em Soldado Invernal.
O filme segue os acontecimentos de Vingadores — Era de Ultron (2015), mostrando que após a catastrófica tentativa de parar o robô criado por Stark (Robert Downey Jr.) o governo não está mais satisfeito com a equipe de super heróis pelo perigo que anda proporcionando aos civis. Com o intuito de freá-los, os políticos criam uma lei na qual Os Vingadores deixam de ser uma instituição independente se tornam propriedade do governo, tendo suas atividades monitoradas e sendo enviados a tal situação só quando preciso. Tony Stark, o Homem de Ferro, concorda com a nova lei, mas Steve Rogers (Chris Evans), o Capitão América, não concorda, e isso faz com que ambos entrem num confronto épico de grandes proporções.
Depois de terem dirigido o excelente Soldado Invernal, a expectativa que Guerra Civil carrega nas costas é uma das grandes, mas infelizmente não cumpre. De fato, é um filme bom, mas de maneira alguma supera o seu antecessor. A começar pelo fato de que esse longa segue a velha fórmula Marvel de produção, não trazendo nada de inovador na maneira técnica de falar.
Esteticamente, o filme é idêntico a Batman Versus Superman: A Origem da Justiça (2016). Segue a mesma linha de raciocínio, ambos os heróis se confrontando mas na verdade sendo manipulados pelo antagonista, que nesse caso aqui é Zemo (Daniel Brhuhl), um soldado que perdeu a família durante o confronto dos Vingadores e de Ultron e que agora pretende se vingar.
Infelizmente, a diferença mais gritante entre Guerra Civil e Batman Versus Superman é o que quebra ainda mais o filme da Marvel: o vilão. Uma das doenças que a Marvel carrega na maioria dos seus filmes (Homem de Ferro 2 e 3, Thor — 2 e a própria Era de Ultron), é a incapacidade de fazer um vilão impactante. E aqui esse erro se repete. Zemo tem boas motivações, mas é de longe ameaçador, chegando nem perto de ser necessário no filme. O vilão apenas incentiva as briga e não chega a interferir diretamente no confronto.
Falando em confrontos, isso nos leva a talvez a um dos maiores erros. Baixando a expectativa do longa, ao longo do filme o espectador fica sentado na poltrona, esperando alguma coisa acontecer, mas essa "coisa" não acontece: é apenas um confronto de super-heróis e nada mais, assim como a Marvel havia vendido, dando a sensação, ao final, de que alguma coisa está faltando — e não são as cenas pós-crédito.
As motivações dos personagens, no geral, são boas, contudo, a motivação de Tony Stark se virar no final do filme novamente contra o Capitão chega a ser uma das piores:
O Cachaça de Ferro faz as pazes com o Patriota da América, mas tudo desmorona quando descobre, através de Zemo, que Bucky Barnes (Sebastian Stan), o Soldado Invernal, foi quem matou os seus pais. Do nada, Stark se volta contra Capitão e Bucky (mesmo sabendo que este fora torturado e manipulado para cometer os assassinatos — Stark chega até a chamá-lo de "desmemoriado"), logo após de descobrir descaradamente que Zemo era quem estava influenciando os confrontos e que seu plano ali era quebrar o grupo de heróis. E sendo assim, numa atitude infantil, o Homem de Ferro cumpre o desejo do vilão e se vira contra o seu amigo.
O problema no filme não é questão de adaptação. A adaptação está excelente. Os fãs de quadrinho que não conseguem desassociar ambas as mídias precisam aprender que adaptação é uma versão alternativa de um material original do qual está sendo derivado. E sendo assim, como adaptação, o longa não peca.
Ponto alto de fato são as cenas de ação. Usando como exemplo a excelente cena do aeroporto, os diretores colocam todos os heróis se confrontando em tela ao mesmo tempo, em cenas de lutas épicas e de tirar o fôlego. E, no meio de toda a confusão, orgasmos nerds são possíveis: temos referências através de diálogos e atitudes. As surpresas que se revelam no aeroporto e ao longo da trama são, óbvio, Pantera Negra (Chadwick), o Homem-Aranha (Tom Holland), e a volta do humor ácido do Homem-Formiga (Paul Rudd), que mesmo tendo pouca participação, fornece uma das melhores cenas duante a Guerra Civil.
Falando em participação, todos os heróis que são inseridos pela primeira vez nesse Universo através de Guerra Civil conseguem devida atenção e não são jogados para o limbo, risco que filmes com muitos personagens pode correr — vide X-men. O ponto alto dessas participações, claro, é o Homem-Aranha (que na verdade é mais um fan service), que depois do sofrido e alegre tempo vivido na Sony volta para os braços da Marvel, completamente repaginado em Tom Holland, mas mesmo assim mantendo fielmente a essência dos quadrinhos. Definitivamente, não há como não se apaixonar pela fofura e carisma do teioso, que acaba se tornando um dos principais centros de atenção do filme.
As atuações não chegam a serem brilhantes, mas também passam longe de envergonhadas. Downey Jr. reprisa o papel que lhe tirou da reclusão cinematográfica e definiu seu humor excêntrico da melhor forma possível. Chris Evans não é lá um dos melhores atores, contudo, possui o carisma necessário para o Capitão América. E apesar de não ser impactante, Daniel Bruhl se sai bem como Zemo.
A produção consegue também trabalhar perfeitamente os dois lados opostos, fazendo com que nenhum dos dois estejam certos, muito menos errados. Todas as motivações apresentadas para ir ou não a favor do contrato de Sokovia são bem trabalhadas e pé no chão.
De fato, um dos maiores erros do longa é seguir a velha e divertida fórmula Marvel, e ter medo de ser "alguma coisa" a mais. O filme se quebra ainda mais por ser, aparentemente, o último filme da trilogia, mas não consegue ser nem de longe inesquecível para perpetuar a franquia do Capitão América nos cinemas. E isso se deve pelo fato de que o filme é interligado ao Universo Cinematográfico da Marvel, deixando assim várias pontas soltas para outras produções do Estúdio, e não terminando o longa com um fim que merecia e muito menos destacando-o como merecia ser destacado dentro das produções Marvel.
Capitão América: Guerra Civil não é de perto um dos melhores filmes da Marvel mas é de longe um dos piores. Divertido, o filme consegue entreter o público e prendê-lo a cada minuto apesar de algumas decepções bem visíveis. Enfim, é aquele velho e sábio ditado: é bom, mas poderia ser melhor.
Nota: 7,5/10