"O jogo da imitação" é um ótimo filme. Torna-se memorável mais pela notícia histórica que gera do que pela obra em si. É como se fosse uma boa fruta espremida para virar suco: ainda que espremida ao máximo, tornar-se-á apenas um bom suco, mas não um suco memorável. O filme tem um bom enredo, que é muitíssimo bem aproveitado, mas não ficará para a posteridade - ao menos não pela sua indiscutível qualidade técnica.
O início destoa um pouco do resto do filme, exagerando na introdução. Quando começa, porém, um sério receio não se concretiza. O roteiro opta por dividir a história em três partes: antes da 2ª Guerra, durante e depois. Um risco calculado, mas muito perigoso, pois a chance de dividir um plot em três para correrem concomitantemente gerando confusão no expectador é gigantesca. Em outras palavras, ao tripartir a história, corre o risco de se tornar confuso - ou pior, deixar o expectador perdido e sem entender nada. Risco não concretizado, daí o brilhantismo do roteiro adaptado (que concorre ao Oscar) e a competência da direção (idem). Na verdade, a tripartição da história é tão genial que não apenas não a prejudica como agrega à obra como um todo. Um detalhe sutil (quem assiste provavelmente nem percebe) que fez toda a diferença. Isso sem contar pregos já martelados, como 2ª Guerra e homossexualidade, utilizados como pano de fundo e que se tornam, também, elementos que incrementam a história. Palmas aos responsáveis.
Houve também a indicação ao Oscar de melhor: edição, trilha sonora e design de produção. A edição está conectada com a questão do roteiro já citada, é, realmente, extraordinária. A trilha sonora, porém, é sutil demais para uma premiação tão importante. O design de produção é tímido, porém, extremamente charmoso. Típico de um filme de época bem conduzido. Grande chance de vencer.
Por fim, a atuação. Benedict Cumberbatch vive o protagonista Alan Turing. Impressionante como o ator se dá bem com personagens arrogantes! Cumberbatch já tem uma carreira (ainda que curta) elogiada, a indicação apenas cristaliza os elogios merecidos que ele recebe. A estatueta, no entanto, deve ficar com Eddie Redmayne ou Michael Keaton - não que Cumberbatch esteja ruim, muito pelo contrário, está, como costumeiro, muito bom... mas os outros foram superiores, e o prêmio é comparativo. Keira Knightley concorre a melhor atriz coadjuvante. Outra indicação merecida, apesar de surpreendente. A carreira de Knightley é de qualidade questionável, com vários filmes ruins e atuações péssimas. Desta vez, se redimindo, ela interpreta com qualidade digna dos elogios que tem recebido (que assim continue).
"O jogo da imitação", reitero, é um ótimo filme. Não entra para a história por faltar um quê de magnífico - não obstante a indicação a melhor filme. Mas vale os minutos de glória que tem recebido.