Tão logo foi anunciado o início da produção de Elysium, o filme criou grande expectativa junto ao público brasileiro. Além de poder conferir a primeira atuação internacional de Wagner Moura, seria um filme de grande orçamento contando com a presença de 2 atores brasileiros - pois além de Moura, havia sido confirmada a atriz Alice Braga. Embora num papel coadjuvante, Moura acabou colhendo muitos elogios no exterior por sua caracterização como Spider, uma espécie de coiote do futuro - em comparação ao trabalho daqueles que auxiliam os mexicanos a entrar ilegalmente nos Estados Unidos.
O ano é 2154, mas as semelhanças com o mundo atual pipocam a todo instante. Elysium é uma espécie de Admirável Mundo Novo. Lá as pessoas não adoecem (ou quando adoecem, são salvas por máquinas de avançada tecnologia), não envelhecem e vivem numa espécie de paraíso artificial na órbita do planeta Terra. Mas como no livro de Aldous Huxley, fora de Elyisum, aqui na superfície da Terra, os menos afortunados sofrem todo tipo de privação - miséria, doenças, desemprego, opressão e vigilância governamental. Qualquer semelhança com a desigualdade social do mundo globalizado não é mera coincidência. Não é a ficção o que mais chama a atenção no início de Elysium, mas o retrato num futuro distante de uma realidade tão presente hoje na maioria dos países hoje chamados de emergentes. Matt Damon, ou melhor, Max Da Costa, mora e transita por uma gigantesca favela que não foi criada digitalmente pelo filme, ela existe de verdade nas redondezas da Cidade do México, e é igual a tantas outras no Brasil, Índia ou África do Sul - país de origem do diretor Blomkamp.
Blomkamp já havia criado em seu filme anterior, Distrito 9, uma admirável metáfora sobre a situação do appartheid racial presente durante tantos anos na África do Sul. Em vez de negros segregados, tínhamos alienígenas que chegaram pacificamente à Terra e se encontram confinados em favelas, aguardando que o governo decida o que fazer com eles. Em Elysium a metáfora se estende para além da realidade sul-africana que o diretor conhece tão bem, para mostrar uma cruel e hiperbólica realidade inspirada na desigualdade social que existe hoje no planeta, a nível interno ou externo de diversos países. Elysium é o sonho de consumo dos pobres e excluídos de um planeta Terra do futuro na mesma medida em que hoje os Estados Unidos o são para os imigrantes mexicanos, cubanos, chineses e tantos mais. Mas basta olhar para a realidade interna de países como o próprio México e o Brasil, para encontrarmos ilhas de prosperidade social e econômica em meio a uma dura realidade vivida pela maioria.
Pois o próprio Blomkamp, diretor de Elysium, acaba de vivenciar a experiência deste abismo que ele retrata no filme. Seu Distrito 9, excelente ficção-científica criada a partir da realidade sul-africana, foi produzido com modestos R$ 30 Mi, mas se saiu muito bem, inclusive no quesito efeitos visuais. Inesperadamente, o filme estourou no mundo todo - mas, especialmente no mercado americano - rendendo 7 vezes mais o investimento inicial. Para este Elysium, o diretor pôde contar com um orçamento de produção em torno de folgados R$ 100 Mi - mas corriqueiros para qualquer produção do gênero made in USA. Talvez aí more o problema. Blomkamp pode ter sofrido da síndrome da pressão econômica, que não experimentou quando rodou com total liberdade e pouca grana seu Distrito 9. Com um início promissor e fora dos padrões dos filmes sci-fi modernos, mostrando miséria mas ao mesmo tempo a solidariedade que existem de verdade e não têm nada de ficção científica, na parte final o filme se perde um pouco e passa a ser terrivelmente comum, parecendo-se obrigado a oferecer o que os grande estúdios acreditam que o público quer ver nos filmes desse gênero: muita ação, tiroteios, explosões e lutas. Pior que isso, o desfecho de Elysium é demasiadamente previsível e até mesmo apressado, carregando excessivamente num tom melodramático e utopicamente inverossímil. Sinceramente, é pedir demais "engolir" o que se passa com o personagem Kruger (vivido pelo ator Sharlto Copley, de Distrito 9). Afinal, acreditar que no futuro haverá tecnologia possível de eliminar doenças presentes no DNA é uma coisa, mas que sejam capazes de reconstruir e "ressuscitar" mortos já fica no nível de bizarros filmes de zumbis. Além do mais, a "volta" de Kruger só se justifica para entabular um embate final com o herói Max, que enfatiza uma evidente falta de solução para dar continuidade à história.
Não há o mesmo frescor de um quase-documentário, a originalidade, criatividade e desenvoltura de seu filme anterior, em que tínhamos a impressão de nunca ter visto nada igual ou semelhante. Em Elysium o diretor parece querer retomar uma fórmula, mas acabou diluindo-a num roteiro não tão-bem trabalhado, além de passar a impressão de haver "sampleado" ideias preexistentes em obras como Admirável Mundo Novo, O Vingador do Futuro, Wall-E e o próprio Distrito 9. Elysium não é um mau filme, e está a anos-luz da maioria dos sci-fi feitos atualmente. Para isto contribuiu a humanização das personagens (e o bom desempenho dos atores principais, com destaque para Sharlto Copley), sua temática nitidamente social e um desenho de produção impecável. No entanto, Blomkamp já demonstrou em Distrito 9 que é capaz de muito mais, o que pode deixar cinéfilos como eu particularmente decepcionados.