“Intocáveis”, definitivamente, é um filme onde tudo é bem feito, nada realmente soa exagerado, os pequenos defeitos passam despercebidos, a direção é mais do que competente, as atuações dos dois atores principais são simplesmente incríveis, a moral é fascinante e, o mais importante, tudo isso é imensamente agradável de assistir. Ou seja, o êxito do drama (muito bem humorado, por sinal – mais detalhes na sequência) é inquestionável, pois, mesmo que não se comprometa em ir além e tampouco chocar ou polemizar o público, se dedica a todo o tempo em narrar sua história, por si só, fascinante.
A trama baseada em fatos reais (vale dizer que os créditos mostram as verdadeiras pessoas) gira em torno de Philippe (François Cluzet), um aristocrata rico que, após sofrer um grave acidente, fica tetraplégico. Precisando de um assistente, ele decide contratar Driss (Omar Sy)- que se interessara pela vaga simplesmente para conseguir mais uma assinatura em seu processo de “seguro desemprego”- um jovem problemático e humilde. De início, eles enfrentam vários problemas, já que ambos têm temperamento forte, mas aos poucos passam a aprender um com o outro.
Não há dúvidas que o grande mérito de “Intocáveis” consiste no fato do ótimo roteiro, de Olivier Nakache e Eric Toledano (também diretores do longa), “amenizar”, de certa forma, a difícil situação ao inserir várias sacadas de humor nos diálogos, assim o filme foge bem do melodrama, e quando as situações tocantes surgem, as mesmas se desenvolvem com naturalidade acerca de tudo aquilo que vinha sendo construído desde o primeiro plano da projeção, não apelando para a “compaixão” do público e tampouco dos personagens. Então, todo o amável clima do filme aliado a um ótimo trabalho da dupla (vale a pena ressaltar a hábil montagem que constrói uma deliciosa narrativa) resulta em algo brilhante e difícil de se ver todo dia (e, merecidamente, o filme se tornou a maior bilheteria na história do cinema francês, ultrapassando a casa dos 400 milhões!). Merece méritos também a fotografia de Mathieu Vadepied, que contrasta cores casando muito bem com a realidade da fita, sem contar que na maior parte das cenas de diálogo os planos são bem fechados nos rostos dos personagens, evidenciando os conturbados estados de espíritos dos mesmos juntamente com uma ótima direção de arte.
As subtramas, porém, às vezes prejudicam o ritmo do drama, pois certos elementos (principalmente envolvendo a família de Driss e a filha de Philippe) são mal desenvolvidos e soam desnecessários à narrativa, mas antes que o filme possa ter seus méritos diminuídos, não há como deixar de mencionar a trama envolvendo a relação entre Philippe através de cartas com uma mulher, no entanto o medo do homem deficiente é tão grande que o impossibilita de marcar um encontro com a moça aparentemente “normal”.
E à medida que o filme se desenvolve nos emocionamos com vários momentos que permeiam o roteiro, como, por exemplo, as profundas conversas entre Driss e Philippe, cujas vidas, apesar de tudo, são vividas com esperança e felicidade. As diferenças entre eles, todavia, são somente superficiais, pois no fundo do mar sem fim da alma são sujeitos iguais em realidades diferentes.
Por outro lado, damos risadas em muitos momentos durante a narrativa de “Intocáveis”, principalmente quando Driss brinca com o fato de Philippe tecnicamente não poder ter relações sexuais e seu “maior ponto de prazer” é a orelha, algo que desencadeia uma ótima descontração ao contexto naturalmente nostálgico e triste. Como esquecer, também, as várias ocasiões quando Philippe dá fortes tragadas nos cigarros de Driss (este último que possui um hilário desejo para com a "assistente" de Philippe), ou quando o rapaz se diverte com o fato de seu patrão venerar a arte a ponto de comprar obras abstratas – que aos olhos de Driss nada mais são do que quadros com “gotas de sangue de nariz” – por altas quantias?... Enfim, já deu para perceber que “Intocáveis” suaviza seu clima dramático o suficiente para divertir, mas em momento algum deixa de transmitir sua verdadeira mensagem e muito menos de atingir seu objetivo como drama.
Infelizmente, o roteiro de Olivier Nakache e Eric Toledano força um pouco a barra no terceiro ato do filme, quando Driss, sem reais motivos para ir embora, deixa Philippe desolado em profunda depressão. Porém rapidamente somos compensados por ótimas cenas belíssimas, como, por exemplo, o tocante momento em que Philippe, com a ajuda de seu fiel amigo, encontra a suposta mulher com quem mantinha contato há meses (lembra-se dela?), e que com ela prosperaria o restante de sua vida, inclusive com mais dois filhos, e viveria com felicidade apesar de todas as complicações (e a principio até parece dificio de acreditar que tal fato realmente ocorrera na realidade, mas, após refletir por alguns segundos, compreendemos que uma cadeira de rodas é definitivamente incapaz de impedir que um amor verdadeiro floresça...).
Portanto, “Intocáveis” é inegavelmente um filme belíssimo e perfeitamente acessível para todas as idades, pois, apesar dos pequenos erros naturais, comove e diverte com genuinidade, mas serve principalmente como uma esplêndida lição de amor e vida, ou melhor, como aula de humanidade.