A intocável maneira de se olhar a vida
Certa vez, fui assistir, no Belas Artes, a um filme francês que me deixou bastante impressionado do início ao fim. Em “O Escafandro e a Borboleta” (2007), um homem apaixonado pela vida tem um derrame cerebral e acorda com uma rara paralisia: o único movimento que ainda resta em seu corpo é o do olho esquerdo. Assim, ele desafia seu destino, consegue inacreditavelmente piscar letras do alfabeto e se comunicar através desse pequeno e crucial movimento. Sem fugir do tom dramático e pesado da trama, você leva um choque de realidade, e, ainda mais pelo fato de o filme ser baseado em uma história real, a única coisa que lhe vem à cabeça quando o filme termina é: “Putz, e eu ainda reclamo da minha vida!”.
Mas, hoje, não gostaria de ser tão dramático assim. Na comédia francesa bem mais suave “Intocáveis”, de Eric Toledano e Olivier Nakache, ainda em cartaz em pouquíssimos cinemas do país, um homem branco, culto, refinado e milionário fica paraplégico após cair de um parapente – este, por sua vez, perde “apenas” os movimentos do pescoço pra baixo – e vai conseguir, através de um assistente negro, pobre, agressivo e suburbano, as respostas para as alegrias da vida. Driss (Omar Sy), o negro, é a extrema falta de compaixão em pessoa. E é justamente isso que atrai o olhar e a necessidade de cuidados de Philippe (François Cluzet), o paraplégico. Por mais que possa parecer clichê a aproximação de dois seres tão opostos, excluídos e estereotipados, o divertido é ver como eles tiram sarro das situações e conseguem extrair a essência da vida e da amizade em uma relação tão improvável. As deficiências de cada um – social em um caso, física no outro – servem para torná-los complementares e ainda mais iguais.
E você já parou pra pensar que uma comédia pode dar um tom muito mais humanizado à ocasião do que um drama propriamente dito? E é isso o que acontece. No primeiro filme, somos tão hipnotizados com o baque que é ter que recomeçar uma vida apenas através do piscar de um olho que nos esquecemos de sorrir, nos esquecemos de sonhar, só nos “lembramos” de chorar... Já no segundo, existem os pontos de vista dos personagens que são essenciais para que não só a trama seja mais leve e humana, mas, também, a nossa identificação seja ainda mais intensa. Os dois homens têm suas deficiências, são politicamente incorretos, fazem e aceitam até piadinhas de humor negro, assim como eu, você, seu vizinho, seu colega de trabalho, a tia Stela... Para, assim, aprender com a vida!
O mágico de “Intocáveis” está na subversão dos valores, na amizade sincera nada forçada, na sensibilidade das pequenas coisas, na bela relação que a troca por serviços prestados se torna no encontro simples da felicidade intensa. Você não gostaria de assistir a um filme –emocionante, sutil e escrachado ao mesmo tempo – que te envolve e te faz enxergar, sem muitas chorumelas, que o prazer da vida está longe das diferenças, mas perto do coração? Não dá pra não ver. É ver pra sentir!