A jornada vivida por Hugh Glass (Leonardo DiCaprio, favoritíssimo ao Oscar 2016 de Melhor Ator), em O Regresso, filme dirigido e co-escrito por Alejandro González-Iñarritu, é uma verdadeira odisseia. No meio do desconhecido deserto norte-americano, enfrentando a adversidade de clima, a solidão, a inabilidade de comunicação diante da condição em que se encontrava, além dos animais selvagens que ali existem (em especial um urso que brutalmente lhe ataca); a maior luta de Glass, com certeza, é pela sobrevivência. Entretanto, mais do que tudo, é o desejo de se vingar que lhe fortalece e lhe move face a todos esses obstáculos.
É certo dizer que O Regresso é um filme que leva tanto o seu diretor, como a sua equipe técnica, assim como o seu elenco, por caminhos bem taciturnos e sombrios. Basta ver o embate que é estabelecido, logo de cara, entre o protagonista Glass e o antagonista John Fitzgerald (Tom Hardy, em atuação indicada ao Oscar 2016 de Melhor Ator Coadjuvante). Enquanto Glass é um homem fiel aos seus valores e, principalmente, à sua família (representada aqui pelo seu filho); Fitzgerald é um homem ambicioso e movido por aquilo que ele deseja alcançar – independente do fato de isso levá-lo a escolhas morais bastante questionáveis.
Apesar de essas dualidades estarem bastante claras para a plateia, a verdade é que O Regresso se exime de fazer um trabalho mais cuidadoso de construção de personagens. A intenção de Iñarritu, com seu filme, na realidade, é levar esses mesmos personagens às últimas consequências, explorando os seus limites, aquilo que eles podem aguentar ou, até mesmo, levando-os à delicada situação de poder sustentar algo que está para ruir a qualquer momento.
Neste sentido, é que se tem a ênfase na força quase animal e primitiva de Hugh Glass. Em O Regresso, ele resiste à dor profunda, à traição e ao sofrimento. Confinado a uma maca improvisada, em silêncio na maior parte do filme, chega a ser impressionante tentar analisar o por quê de tanto favoritismo de Leonardo Di Caprio, que defende um personagem raso, cujos motivos só são revelados no ato final do longa. É Hugh Glass que move a trama de um filme que usa a ação e a reação como desculpa para esconder os seus grandes defeitos – especialmente de roteiro. E é aqui que se revela também a genialidade de Iñarritu, que, com sua virtuose, soube revelar bem para a plateia aquilo que O Regresso tem de melhor – o seu elenco.