Desde o início, decidi não assistir aos trailers do filme para evitar criar expectativas. No entanto, o marketing agressivo da Mattel tornou isso quase impossível, mas fiz o meu melhor. Surpreendentemente, o filme superou expectativas que eu nem sabia que tinha.
A forma brilhante como o filme subverte as expectativas em relação aos personagens femininos e masculinos é magistral. As críticas negativas, especialmente vindas de homens, que focam na caracterização dos personagens masculinos, apenas comprovam que o filme atingiu com sucesso seu público-alvo (mesmo que alguns não tenham percebido a ironia). É fascinante como o filme aborda o "ser mulher" de maneira abstrata e realista, diante das lentes do patriarcado, do feminismo liberal e da interseccionalidade,
em uma transição equivalente aos paralelos entre Barbielandia, Mundo Real e Kenlandia.
Há uma crítica ao capitalismo, mas o filme não se propõe a ser uma obra profundamente ideológica. Ele é apenas um pouco "fora da caixinha", o suficiente para incomodar aqueles que se posicionam na extrema direita do espectro. Podemos considerá-lo mais uma crítica aos níveis reformistas a la Quebrando Tabu.
Enfim, o filme entrega um retrato real sobre a dor da mulher classe média/alta. Pode soar que eu estou caçoando, mas não estou, porque essa dor existe, sendo causa de depressão, ansiedade social, divórcios, relacionamentos tóxicos, rivalidade feminina, problemas de autoimagem, desvantagens no ambiente de trabalho, etc. Ainda assim, tudo é abordado de forma leve. Ainda celebra a beleza de ser mulher, mesmo diante dos infortúnios, sem impor estereótipos rígidos sobre o que significa "ser mulher".
As lentes cor-de-rosa do filme podem assustar aqueles que acolhem a sua feminilidade de forma diferente. No entanto, em minha interpretação, o filme não impõe uma hiper feminilidade loira e rosa-choque; isso é apenas a ferramenta usada para transmitir sua mensagem - uma ferramenta ainda mais poderosa, considerando que une gerações de pessoas que brincaram com a Barbie e sonharam ser como ela.
Greta Gerwig provavelmente considerou isso ao decidir fazer com que a Barbie, no início, perdesse sua identidade com dor e tristeza, para depois assumir sua nova identidade como Barbara orgulho.
A Barbie cresceu conosco, ela pode ser você e você pode ser ela, sem precisar mudar quem você é.
Seu sonho de infância pode ser real, e a vida real pode ser ainda melhor.