À primeira vista o título poderia fazer pensar em algum filme espanhol sobre amizade, mas "Amistad" é o nome de um navio que navegava sob a bandeira da Espanha e era usado para o tráfico de escravos na primeira metade do século 19. Em 1839, 53 africanos rebelaram-se tomando o controle do navio e matando a tripulação inteira menos os navegadores Ruiz e Montez, para que esses pudessem pilotar o navio e levá-los de volta para Africa.
O Amistad acabou atracando nas costas dos Estados Unidos e esse fato levantou uma briga internacional entre a Espanha, os Estados Unidos e os dois navegadores, cada uma das partes reivindicando a posse do navio e dos escravos. O processo envolveu também alguns advogados que lutaram para que os escravos não fossem tratados como mercadoria mas sim libertos e considerados cidadãos livres.
Steven Spielberg realiza em 1997 um filme histórico que ficou entre os menos conhecidos da cinematografia dele. Com um orçamento de 40 milhões de dólares, o filme não foi um campeão de bilheteria e em geral foi ignorado por público e crítica, tanto que chegou até os nossos dias de forma bastante anônima.
Mas a reconstrução do evento mencionado acima é grandiosa, mesmo com algumas imprecisões históricas e alguns artifícios para tornar o conto mais cenográfico (afinal, é de cinema que estamos falando).
O filme consegue retratar de forma crua o horror da captura dos africanos por parte das tribos inimigas, as torturas e os abusos sofridos à bordo do navio, as condições deploráveis em que eram forçados a viver e o assassinato de dezenas deles (eram jogados no mar) quando os mantimentos à bordo começavam a ficar escassos.
Spielberg realiza um ótimo trabalho também na caracterização dos bons: um jovem Matthew McConaughey é Baldwin, o advogado que aceita defender a causa dos escravos, Morgan Freeman é Theodore Joadson, outro defensor da causa e um Anthony Hopkins em esplêndida forma faz o papel do ex-presidente chamado para advogar na última instância na Suprema Corte.
Mas quem realmente rouba a cena é Djimon Hounsou no papel do escravo Cinque, que consegue transmitir muito bem o drama da própria condição ao espectador em um show de interpretação. O roteiro, a fotografia, a preparação das cenas e o figurino são impecáveis.
Apesar de "Amistad" ter recebido 4 indicações ao Oscar, não levou nenhuma estatueta, no ano em que "Titanic" foi o grande vencedor.
Exemplo de grande cinema, esse é um filme que deveria ser mais conhecido e que tem tudo para tornar-se um futuro clássico.