Megaprodução com Marina Ruy Barbosa e Lázaro Ramos eleva visual e encolhe a história.
por Aline PereiraImagine um mistério ao estilo "quem matou?" de Agatha Christie acontecendo no frio congelante do Polo Sul. É daí que parte Antártida – filmado no calor do Rio de Janeiro – para nos contar uma história de suspense e drama que traz para o foco também a questão da violência contra as mulheres. Quando uma das personagens é vítima de um crime no local, todos os homens passam a ser suspeitos e vem daí uma boa resposta para o discurso sempre presente do "mas nem todo homem” quando o assunto é esse.
O longa é ambientado em uma base de pesquisa brasileira na Antártida, que abriga cientistas e militares. Com a chegada da pesquisadora Inês (Marina Ruy Barbosa), o clima fica pesado: ela sobre um abuso sexual enquanto está desarcodada e não sabe quem foi o autor. A comandante da base, Elizabeth (Andréa Beltrão), então, dá início a uma investigação: todos os homens que estão ali se tornam suspeitos e os interrogatórios com cada um têm a ideia de deixar o público tão desconfortável e desconfiado quanto as protagonistas.
Paris Filmes
O ponto bom do filme está justamente na proposta da investigação liderada pela comandante. Tudo bem, "nem todo homem” é violento, mas a grande questão é que é muito difícil saber quais deles são. E o preço da confiança pode ser a própria vida. No filme, todos os homens têm comportamentos – alguns mais sutis, alguns escancarados –, que indicam um potencial para cometer o crime. Não dá para afirmar quem foi, mas todos eles poderiam ter sido.
Com o material que tinha em mãos, Marina Ruy Barbosa fez um bom trabalho como a mulher que está no centro da questão. O trauma causa nela uma série de reações que vão se agravando com o passar do tempo: o medo e a raiva se transformam em uma internalização da culpa que é fácil identificar na vida real. Não é incomum que as vítimas se sintam culpadas e que o comportamento delas decida se merecem ou não ter direito ao consentimento.
Além do caso principal, o filme também traz uma dinâmica mais silenciosa entre o ex-casal formado por Marina (Leandra Leal) e Vicente (Lázaro Ramos). Em um reencontro como par 23 anos após O Homem Que Copiava, os atores nos apresentam também uma questão comum do mundo real, em que atos de violência corriqueiros passam batido no dia a dia de muitas mulheres.
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Aqui, então, vale destacar a boa escolha de elenco: artistas do calibre desses já citados elevam a produção e os rostos conhecidos (e talentosos) ajudam na imersão naquele universo. Além de Marina, Andréa Beltrão é um destaque: a personagem dela se torna comandante em um contexto conturbado e a atriz transmite uma angústia genuína.
Ao final do filme, fica a sensação de que Antártida deveria ser uma série de televisão dada a quantidade de tramas paralelas pinceladas ao longo de apenas 93 minutos. Enquanto o caso de Inês está rolando, o longa apresenta diversas outras histórias – mas todas de forma superficial. A comandante tem uma questão pessoal que a conecta à protagonista, o casal Marina e Vicente têm um histórico enorme, os principais suspeitos têm seus próprios dilemas, um gerador está com defeito e em algum lugar existe uma pesquisa sendo feita - é por isso que eles estão lá, afinal.
Certamente, há material para aprofundar muitos dos temas propostos no filme e eles parecem interessantes, mas não são expostos de forma sólida em momento nenhum. Isso resulta na sensação de que estamos colhendo informações avulsas, às vezes sem saber de onde estão vindo e para onde estão indo.
Além da violência contra a mulher, a masculinidade tóxica também é um assunto de interesse para a história, mas não se sustenta com o que é apresentado, justamente porque não há profundidade na exploração desse viés. A maioria dos personagens são homens, mas fica para a imaginação do público o trabalho de entender exatamente aonde o roteiro que nos levar com isso.
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Nesse caso, a escolha pela "simplificação” nem sempre cai bem. O tema principal é muito sério, profundo e com um impacto grande demais na vida real de milhões de pessoas para que apareça disperso em nome do suspense, ainda que as intenções sejam boas. Mais do que isso, a própria estrutura do mistério é comprometida e as escolhas dos personagens parecem perder o sentido e serem pouco inteligentes para um grupo supostamente bem treinado e instruído.
Acredito que o tempo aqui é um fator decisivo: algumas horas a mais fariam bem a uma elaboração que vem de um roteiro envolvido com o assunto, mas que mesmo sendo didático, parece ter ficado mais no campo das ideias.
A justificativa para que Antártida fosse para as telas de cinema e não para a televisão está no visual – que, de fato, é impressionante. Com mais de 1500 metros quadrados, os Estúdios Globo apresentam uma tecnologia de ponta, que une os efeitos especiais aos práticos em um trabalho inédito no cinema brasileiro. Seria praticamente impossível gravar um filme no Polo Sul, logicamente, mas a construção do ambiente transmite com sucesso a ideia do frio, da nevasca e de todas as dificuldades que as condições extremas impõem às atividades humanas.
São diversos os takes que o filme nos coloca para mostrar a potência singular do estúdio e a ambientação na neve. É tudo tecnicamente muito bem convincente e quem se diverte com grandes impactos visuais certamente vai encher os olhos e penso que em termo de entretenimento, o projeto é bem sucedido. Nesse aspecto, faz todo sentido a escolha de apresentar a história como um evento para ser visto em tela grande. E é bonito mesmo, mas talvez a história pudesse ser ainda mais.
Assistido no 54º Festival de Cinema de Gramado