Quatro Meninas
Críticas AdoroCinema
3,0
Legal
Quatro Meninas

Quatro meninas que, na verdade, são oito

por Paulo Ernesto

O filme Quatro Meninas se inicia em 1884, em um internato de meninas brancas que contam com meninas negras escravizadas como serviçais. Logo de cara conhecemos o quarteto central, Tita (Ágatha Marinho), Lena (Dhara Lopes), Francisca (Maria Ibraim) e Muanda (Alana Cabral), marcado pela fuga de uma delas, que retorna para planejar a libertação das demais. Esse início, somado ao título e ao pôster, acena para uma possibilidade instigante: acompanhar o protagonismo de meninas negras em meio ao cruel período da escravidão.

Desde as primeiras cenas, porém, o longa deixa claro que não pretende ser violento, nem mergulhar diretamente no sofrimento. Ele não apaga as humilhações ou a condição degradante imposta às meninas negras, mas escolhe adotar uma linguagem mais branda, sem choques explícitos. Paralelamente, observamos as jovens brancas lidando com suas próprias limitações sociais: casamentos arranjados, o luto e o impedimento de estudar em universidades.

Divulgação Cris Lucena
Divulgação

Consciência histórica e escolhas estéticas

A ideia de se contar uma história que funciona em um internato partiu de um episódio real segunda a roteirista Clara Ferrer: uma menina branca que foi acompanhada por uma serviçal negra escravizada. As autoras disseram que essa história foi o ponto de partida para a construção da narrativa. Para elas, seria importante que essas meninas escravizadas estivessem na mesma faixa de idade de suas sinhás, para que um espelhamento fosse feito e o público percebesse que elas deveriam ser iguais, mas não eram.

O filme pretende focar nas meninas escravizadas e em seus universos particulares, mas não sabemos muito sobre suas rotinas e dia a dia, nem mesmo sobre o internato. A obra tem um tom mais romantizado, com traços de filmes voltados ao público adolescente. Apesar da expectativa, parece pouco político e não responde diretamente às discussões recentes sobre racismo e os resquícios da escravidão brasileira.

As meninas negras são mostradas com forte consciência histórica, falam sobre suas famílias, os reinos africanos e a potência de seus antepassados. Em alguns momentos, o discurso soa contemporâneo, e esse anacronismo se repete em figurinos e na estética geral. Uma estilização que aproxima as personagens do público atual e confere jovialidade à narrativa.

A fotografia é cuidadosa, colorida e tem especial atenção ao filmar a pele negra de forma que ela brilhe sob a luz do luar assim. Apesar de ambientes abandonados e situações que poderiam sugerir dificuldade e escassez, o filme se preocupa em construir quadros belos, de composição equilibrada, sempre balanceando os dois grupos de meninas.

Os figurinos, que parecem também misturar épocas, fazem parte desse movimento de tornar o filme esteticamente belo. Eles ajudam a construir a personalidade das meninas, mas não são explicados em sua origem. Elas surgem com novas roupas bordadas por uma das personagens, mas, fora isso, o restante não parece muito realista, considerando a situação de fuga.

A virada: De quatro a oito protagonistas

O motor narrativo do filme, a fuga das quatro meninas escravizadas, é interrompido quando uma das sinhás descobre o plano e decide se juntar a elas. A partir daí, acompanhamos oito meninas em fuga: quatro em busca de liberdade e quatro em busca de escapar do "patriarcado".

Essa virada, apesar de surpreendente, dilui o protagonismo inicial. O quarteto negro perde espaço, tendo de dividir tempo de tela e intensidade dramática com as jovens brancas. A escolha narrativa sugere uma ideia de sororidade universal, como se todas estivessem igualmente oprimidas. O problema é que, ao nivelar experiências tão distintas, o filme corre o risco de suavizar a brutalidade histórica da escravidão.

Cena de Quatro Meninas Cris Lucena
Cena de Quatro Meninas

De fato, a virada multiplica histórias e desejos, sem se aprofundar demais em nenhuma delas. Se o filme tivesse mantido o foco apenas nas meninas negras, poderíamos acompanhar como cada uma correria atrás de seus sonhos e fugiria das dores e cicatrizes do passado. Elas relatam o desejo de construir uma família, casar, conhecer outros lugares, mas não vemos esses anseios se desenvolverem.

O quarteto acaba preso em comparações com as sinhás, e descobrimos pouco sobre sua interioridade. Questões importantes ficam de fora: como algumas delas têm tanta consciência do que é ser negro fora da condição escravocrata, quem são seus antepassados e famílias, quais experiências alimentaram sua esperança de uma vida justa e feliz após a fuga e quais os medos e hesitações que as fizeram esperar até aquele momento.

Personagens secundários e tensões internas

Além das meninas, outro personagem de destaque é o “monsieur” Benjamin (João Vitor Silva), ator em ascensão no cinema, também presente em O Agente Secreto e no premiado Cinco Tipos de Medo. Ele é o único homem com papel mais relevante, atuando como professor de artes do internato. Sua relação com Lena é atravessada por uma obsessão que, aos poucos, se revela perturbadora. Apesar de inicialmente parecer um personagem inofensivo, sua função é contrapor o universo feminino e representar os danos do patriarcado.

O grupo de meninas brancas é composto por Celina (Duda Batsow), Guilhermina (Duda Matte), que tem uma ligação afetiva forte com Francisca, Joana (Gabi Cardoso) e Eugenia (Giovanna Rispoli), a mais cruel das quatro. Segundo Giovanna, sua personagem deixa evidente que, mesmo quando as outras aparentam ser mais gentis, todas carregam a mesma incapacidade de enxergar as meninas negras como iguais. Moldadas por uma realidade opressora, que faz com que elas reproduzam os comportamentos de quem as oprime.

Reflexão romântica ou oportunidade perdida?

Seria potente acompanhar essas meninas recém-libertas descobrindo o mundo, reconstruindo sonhos e experimentando a liberdade. Mas o filme prefere colocá-las de volta orbitando os dramas de suas sinhás. Há momentos memoráveis, como a cena em que explicam didaticamente o absurdo da escravidão, que chegou a arrancar aplausos no Festival de Cinema de Brasília. O público, no entanto, queria mais desse enfrentamento, mas a proposta das diretoras foi outra: um retrato conciliador de oito trajetórias femininas, sem aprofundar os abismos que as separam.

Durante as sessões, o público reagiu em cenas de enfrentamento e em momentos de comparação descabida, como quando uma das brancas tenta convencer uma negra de que suas vidas também eram igualmente difíceis. Parte da plateia esperava mais embate e centralidade das meninas negras, enquanto outra parte valorizou a tentativa de reconstruir uma imagética diferente da que tem sido explorada nos últimos anos, tratando o tema de forma mais lúdica e acessível.

A suavização da violência foi uma decisão consciente da diretora Karen Suzane. Ela não queria fazer um filme sobre sofrimento, e relatou que até mesmo decisões de bastidores já eram dolorosas o suficiente, como a escolha de onde ficariam as cicatrizes da personagem Muanda. Pensar em justificativas para cada uma delas já trazia dor em excesso, que não quis ser reproduzida na narrativa.

O final esperançoso, por sua vez, soa como uma fantasia conciliadora. Apesar disso, a diretora defende que o céu nublado da cena final sugere um futuro incerto, em que os destinos das meninas inevitavelmente se separarão.

Cena de Quatro Meninas Cris Lucena
Cena de Quatro Meninas

Imaginário histórico e caminhos possíveis

No fim, Quatro Meninas funciona mais como uma reflexão quase romântica sobre histórias possíveis, um exercício de imaginação histórica com final esperançoso. É um filme bonito, esteticamente cuidadoso, mas que deixa escapar a chance de explorar de forma mais contundente o protagonismo negro que prometia desde o início.

Ainda assim, o filme abre espaço para pensar outras formas de representar personagens negras no cinema. Ele aponta para um caminho mais lúdico, imaginativo e acessível a um público jovem. Nesse sentido, cumpre um papel político diferente, não centrado na violência, mas na construção de novas possibilidades de imagética, em que a beleza, a esperança e a imaginação também são ferramentas a serem valorizadas.

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