Para compreender essa superprodução que dura 3 horas, é preciso chegar à figura do diretor Christopher Nolan. Ele não é o herói grego da telona, mas seu interesse e ambição por histórias épicas é antigo.
O flerte dele com a Mitologia Grega e com o poeta Homero remonta a 2004, quando seu nome foi mencionado para dirigir a Ilíada. Mesmo com o fracasso da expectativa, Nolan esperou pacientemente por mais de 20 anos. O troféu vai para o vencedor como as competições esportivas da Grécia mandavam.
Ele encampou a ideia de um projeto bem audacioso. E não quis decepcionar no que apresenta aos espectadores em relação à qualidade de imagem. “A Odisseia” é rodado com tecnologia IMAX. Um atrativo de última geração para dar suporte à duração do filme. Também se trata de um desafio cerebral para os cinéfilos, pois com tantas horas, vale a pena assistir?
A empreitada de Nolan prossegue com as locações: filmado em vários países como Marrocos, Islândia, Grécia e Itália, o diretor prefere descartar efeitos especiais ou os recursos tecnológicos.
Toda essa sofisticação ambiciosa pode ser equiparada ao que foi escrito por Homero bem antes de Cristo. Afinal, as duas obras de Homero estão entre as mais importantes e influentes da civilização ocidental. Então, a responsabilidade pesa na hora de equalizar produção, direção, enredo, locações e personagens.
Há quem desaprove a escolha dos atores como Anne Hathaway e Matt Damon. Vivendo os protagonistas Odisseu (ou Ulisses) e Penélope, os dois se saem bem e não prejudicam a composição e o desenvolvimento da película. Na realidade, é dispensável mostrar tantos músculos (como era pedido no herói “Aquiles” da Ilíada), pois Ulisses está centrado na liderança, persistência e coragem, qualidades contidas noutros heróis gregos. Por sua vez, as mulheres gregas se notabilizam pela paciência, abnegação e aflição interior – desnecessária a musculatura física ou a beleza estonteante.
Aliás, Christopher Nolan prefere misturar certos episódios da Ilíada em sua “A Odisseia”. Não é raro que a história de Troia, seu cavalo e o sucesso final do qual o próprio Ulisses participou apareçam em flashes. Essa mistura não chega a prejudicar a trama.
O fato é que contar uma história fascinante, resistente por séculos e séculos, ter fidelidade a ela e ao texto original faz com que a curiosidade seja despertada no público. A narração da jornada de Odisseu por tantos lugares até chegar a Ítaca, onde sua esposa Penélope está acuada e de mãos atadas em relação ao casamento arranjado com Antínoo (vivido por Robert Pattinson), desperta, alucina e encanta não só pelas aventuras como pelo dinamismo dos acontecimentos.
Os mitos, obstáculos, traições, abandonos, reconciliações e até conversa com os mortos vindo do Inferno tornam o filme insólito, mágico, exótico, divino. As aparições de Atena, Calíope e Circe são suficientes para tudo isso. Mesmo não encarnados, Zeus, Febo e Poseidon (o deus inimigo na “Odisseia”) trazem tempero e emoção.
Monstros, feitiços, seres e fenômenos marítimos ilustram o antagonismo entre forças. “A Odisseia” é um grande marco de tudo aquilo que já nos acostumamos a ouvir ou a ler na mitologia grega: o recheio permeado de ambições, ilusões, mortes, superação, interferências humanas e/ou divinas, competição, lados opostos, paixão e luta pelo poder.
Christoplher Nolan teve uma visão original para os intérpretes, buscando abraçar a diversidade: colocou atores importantes e de múltiplas descendências. Lupita Nyong´o (de origem mexicana e queniana) trabalha duplamente em “A Odisseia”, fazendo os papeis de Helena de Troia e de Clitemnestra. O acolhimento dessa diversidade também vale para o colombiano John Leguizamo, que interpreta muito bem o pastor cego Eumeu, amigo de Odisseu.
Não faltará emoção no filme, a exemplo do dilema vivido por Telêmaco (papel de Tom Holland), filho de Penélope e Ulisses, que sofre por notícias ou pela suposta morte do pai. Igualmente no começo da película, quando a tropa dos gregos invade a caverna do gigante Polifemo, filho de Poseidon.
A despeito de algumas polêmicas e ressalvas vindas de alguns espectadores e críticos, “A Odisseia” figura e se iguala ao poema épico de Homero. Em sua proporção, envergadura e amplidão. É muito consistente. E toda a fase de produção é sólida.
Quanto aos comentários desfavoráveis, a maior prova vem do público que frequenta as salas de cinema: os mais “maduros” se encantam e ficam inebriados porque conhecem a epopeia; os mais jovens ficam despertos em sua curiosidade, identificando-se com tudo o que a cultura ocidental herdou dos épicos, visionários e inovadores gregos.