Enfim, foram exatos 20 anos após o primeiro filme estrear nas telas de cinema. E a indústria do cinema apostou na continuação com pitada de ficção. Sim, o primeiro “Diabo Veste Prada” foi baseado num livro narrando experiências verídicas.
A segunda versão de “O Diabo Veste Prada” quase não foi feita, visto que as atrizes principais Meryl Streep e Anne Hathaway relutavam com o projeto. Bom ressaltar que Meryl Streep não gosta de fazer continuação de filmes. Mas, anteriormente, ela fez uma exceção no musical “Mamma Mia”.
O resultado de participar ou não da edição de 2026 está lá, bem em frente à poltrona do espectador. Os mais saudosistas aplaudiram.
A tônica da película é investida em reviravoltas, lances de amor, controle, poder e com a onda gigante das tecnologias. Sim, Miranda Priestly está em crise com a avassaladora invasão do digital e da Inteligência Artificial.
De um lado, aguarda a promoção de seu chefe, Irv. Por outro lado, Miranda tem que se acostumar com as declarações de sua edição impressa da “Runway”, a qual está caduca. Que hoje, a preferência é de leituras fáceis, curtas e de acesso instantâneo. Uma executiva autoritária e despótica que se vê no recheio do sanduíche.
Enquanto isso, Andy (personagem de Anne Hathaway) é uma jornalista bem-sucedida. Dedicada ao jornalismo investigativo, ela está prestes a receber um prêmio durante um evento chique. Até que ela e seus companheiros de profissão recebem a notícia de que todos foram demitidos pelo celular.
Indignada, ela faz um discurso inflamado, mas não há o que fazer. Os acontecimentos e a realidade são mais líquidos, sem consistências, sem garantias. Até que Irv a “descobre”; a mesma pessoa e o mesmo superior de Miranda.
Miranda tem que lidar com uma matéria de sua revista, que elogiou algumas indústrias praticantes da exploração de mão de obra. Isso chama a atenção da publicidade. Não tendo opção, Miranda vai buscar uma grife, onde trabalha sua ex-assessora Emily (Emily Blunt). Andy percebe que a química entre as duas não é boa.
E tende a piorar: pois o namorado de Emily pretende comprar a revista. Além disso, Irv morre, seu filho Jay assume os negócios e manda uma equipe de consultores e especialistas para proporem mudanças na empresa, cogitando substituições de funcionários. A saia fica muito justa e, talvez, o emprego vai acabar.
Miranda busca a ajuda de Andy na intenção de que alguém concorrente aos planos de Jay e de Emily compre a empresa.
Enquanto assistimos a um vaivém rápido de diálogos e de viradas de mesa, percebe-se que a tirania, o exercício ilimitado de poder e as humilhações de Miranda são arrefecidos. Não desaparecem por completo, o que dá um tempero muito bom ao filme. Sua personalidade nesta versão adquire um toque suave, uma fragilidade escondida, mas que salta à tona durante a exibição.
Querendo provar sua capacidade, Andy sobressai com desenvoltura, não abandona sua chefe. Atura tudo. Joga com ela. Aposta. E também aposta no amor em que diálogos menos ásperos, mas não menos ágeis dão interesse ao filme.
Injustiçado e humilhado por Miranda, Nigel (vivido por Stanley Tucci) tem sua redenção no momento mais crucial de Miranda, a qual foi convencida pela habilidade e percepção de Andy. Uma troca de favores, já que dentro do filme, Nigel faz uma importante revelação a Andy.
Duas horas agradáveis: as locações na Itália são belíssimas e é bom rever certos ícones por alguns instantes como Donatella Versace ou Lady Gaga, que faz uma boa apresentação boa de sua música dedicada ao filme.
Há momentos de comédia e também de aventura e tensão. Embora retrate a tendência atual de que tudo é inesperado, digital e de que as coisas não são o que realmente são, “O Diabo Veste Prada 2” descortina essa incerteza que as tecnologias digitais trouxeram e impactam no mercado.
Como não podia deixar de ser, as roupas e afins possuem ótima elegância e bom gosto. Tanto Meryl quanto Stanley acertam em cheio e servem de modelo para quem quiser investir ou quem gosta de estilo.
O roteiro tem sua sabedoria, impedindo aquela fatalidade de que a segunda versão é pior do que a primeira. Prima por sua independência e autenticidade. Só nos lembramos que se trata de uma continuação por causa dos atores e, num certo instante, na audição de Madonna.
A película acerta em discutir temas delicados como o tradicionalismo do jornalismo e sua transformação, a invasão das tecnologias digitais, o acesso à moda para poucos, a relação de trabalho efêmera e sem compromisso para toda “a eternidade”.
Ademais, para quem trabalha em empresas, a identificação é imediata: aspereza, reuniões longas e pouco agradáveis, puxadas de tapete, reorganização ou realinhamento da empresa, entre outros elementos.
A leveza do roteiro e a aposta nos personagens originais garantem uma ótima diversão sem tédio ou repetição. Cada personagem tem sua autoafirmação proclamada e evidenciada, não ficando preso à primeira edição. Uma habilidade digna de se destacar.
E outra coisa importante: a condução e o desenvolvimento da história pelas duas horas de duração fazem e até superam o questionamento de valer a pena o ingresso. Voilà, cherie!