Vencedor de Melhor Filme no Festival de Veneza, longa de May el-Toukhy apresenta relato doloroso dos efeitos da 2ª Guerra Mundial na Dinamarca.
Toda vez que um filme conquista aclamação nos festivais internacionais, uma pulguinha da curiosidade se instala na mente de qualquer um que adore cinema. Quando a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo liberou a lista desta edição, houve certa comoção para assistir Mulher Desconhecida, vencedor do Leão de Ouro de Melhor Filme e do Coppa Volpi de Melhor Atriz para Mathilde Arcel no Festival de Veneza de 2026. Durante a intensa cobertura do evento, o AdoroCinema assistiu ao projeto e conta o que fez dele tanto um destaque internacional quanto uma experiência angustiante e refinada com a sétima arte.
Conhecendo a Mulher Desconhecida
Cineastas por todo o mundo compartilham de um fascínio por obras que retratam a 2ª Guerra Mundial. Apenas nas obras vistas durante a 50ª Mostra de SP, o tema apareceu em diferentes momentos, mas de maneiras originais diante do emaranhado de filmes que mergulham na época. Além de A Violinista, temos Mulher Desconhecida, que opta por mostrar momentos posteriores à derrocada do nazismo - e como isso afetou a vida das pessoas na Dinamarca.
A trama acompanha Marie (Mathilde Arcel Fock), uma empregada doméstica que vê a sua vida mudar completamente ao se tornar noiva de Christian (Carsten Bjørnlund), que passa de patrão a marido após se tornar viúvo. Ela vê neste casamento a oportunidade de se desvencilhar dos efeitos da guerra, que ainda ecoam nas janelas, e fugir de qualquer opressão que poderia cair sobre o seu colo.
50ª Mostra de SP: Uma das obras mais delicadas do ano, O Sentido da Vida nos lembra o que realmente importa diante das pressões do capitalismoDesde o início, a partir de uma fotografia fria e bucólica, conhecemos a rotina dessa pessoa misteriosa. Submissa ao novo companheiro e obstinada nos deveres da casa enquanto entende sua função dúbia entre doméstica e esposa, Marie se destaca por agradar todos ao redor, por mais que faça coisas que a desagrade. É a partir desse ponto que a diretora traça toda a trajetória da protagonista: alguém que sobrevive, não se sabe exatamente de onde veio e o pouco do seu passado abre feridas mais profundas do que se pode imaginar.
Entre o trauma e a sobrevivência
Com uma direção polida e até poética, May el-Toukhy não elucida exatamente quem é essa personagem desconhecida, como nos lembra o título do filme. A diretora cria um jeito de universalizar a história de outras mulheres através desse triste conto de guerra. Apesar das especificidades da trama, cria-se uma espécie de mártir vivo que se conecta à história das mulheres ao longo dos séculos.
Essa ponta, que vai do sofrimento à resistência, surge por muitos caminhos: através de uma dor aprofundada pelo sexo indesejado, na forma como precisa obedecer esse homem que parece gentil, mas a trata como um objeto, é na maneira como ela vê nas ruas que sua segurança não é um direito, mas uma oportunidade que precisa ser agarrada com todas as forças.
O fantasma do nazismo sobre essa sociedade mostra como os efeitos da guerra são desafiadores e duradouros. Não há vitória, mas uma trégua, e quem continua a sofrer são as mulheres. Seus corpos são violados nas ruas, o sexo é uma moeda de troca e, talvez um dos maiores símbolos da feminilidade, representado aqui pelos cabelos, são arrancados com crueldade pelas massas. Independentemente do lado ou da origem, Mulher Desconhecida nos lembra o tempo todo de que a figura da mulher é sempre o alvo.
Durante a narrativa, que parece ser propositalmente vagarosa para que sintamos a angústia de Marie com a queda do seu próprio mundo, a maioria dos personagens masculinos surge sob uma ótica maniqueísta. Mesmo quando uma gentileza ressoa em cena, a insegurança da protagonista nos faz questionar as intenções de cada nova interação. Esse arquétipo colocado nos personagens masculinos, no entanto, desaparece no oposto, que consegue abraçar áreas cinzentas muito bem aproveitadas, incluindo da própria Marie.
"Nosso poder está no local de trabalho": Em meio às eleições 2026 e ao debate da escala 6x1, Boots Riley mostra como I Love Boosters aborda a luta de classesA resistência que há por trás do 'ser mulher' incutido na protagonista pode remeter muitos à atuação de Fernanda Torres em Ainda Estou Aqui.. Mathilde Arcel Fock consegue fluir sua interpretação entre diferentes reações da acanhada e destemida Marie, com especial atenção a como os silêncios são muito bem trabalhados através dos gestos e olhares. Enquanto assistimos ao desmoronamento desse frágil castelo, há espaço para certas reflexões sobre ética em um mundo cruel e sem regras.
Em muitos momentos, o público acaba rendido diante das escolhas de Marie - e aqui não há com o que concordar ou discordar, há apenas uma história dolorosa e, mais uma vez, penosa no próprio desenvolvimento. É compreensível ver como Mulher Desconhecida foi aclamado em tantos lugares, pois, apesar de ser mais apático do que deveria ou ter um ritmo que vez ou outra beire ao enfadonho, é brilhante ao mostrar como a história nunca foi gentil com as mulheres a partir de um bom recorte. A cena final nos deixa um gosto amargo, um nó na garganta, ao pensar que ainda existem tantos ecos da violência enraizados na estrutura que rege a nossa vida em sociedade.
*O AdoroCinema assistiu ao filme durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.