"É quase impossível de assistir": Martin Scorsese reconhece o "gênio" deste filme lançado há 111 anos, mas que continua problemático
por Giovanni Rodrigues

Martin Scorsese já se manifestou diversas vezes sobre O Nascimento de uma Nação, de D.W. Griffith. Embora reconheça o cineasta Griffith como um dos grandes "ilusionistas" do cinema, ele também considera que "ele foi longe demais"...

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Lillian Gish, atriz-fetiche de D.W. Griffith, o chamava de "o Pai do cinema". Seu amigo e sócio com quem fundou a mítica United Artists em 1919, Charles Chaplin, via nele "o mestre de todos nós". Inventor do cinema moderno e das primeiras superproduções americanas, de técnicas experimentais revolucionárias como a montagem paralela, diretor prolífico com mais de 450 curtas e longas-metragens em seu currículo, D.W. Griffith compreendeu, sem dúvida, melhor do que ninguém na era do cinema mudo o potencial da sétima arte como meio de expressão.

O Nascimento de uma Nação: um feito visual

Em 1915, ele assinou O Nascimento de uma Nação, considerado com razão a sua obra-prima. Tendo como pano de fundo o destino trágico de duas famílias mergulhadas no turbilhão da Guerra de Secessão e nos anos seguintes, o filme é a primeira superprodução da história do cinema americano, rodado ao longo de nove semanas.

É também um autêntico feito visual, onde Griffith multiplica montagens paralelas, primeiríssimos planos e ângulos de câmera complexos, que enriquecem a narrativa da obra. O sucesso foi colossal, mas uma faca de dois gumes. Embora tenha arrecadado o equivalente a 10 milhões de dólares — uma quantia astronômica para a época —, o filme é também absurdamente racista.

Além de escalar atores brancos para interpretar personagens negros (prática comum na época), a produção apresenta a Ku Klux Klan sob uma ótica extremamente favorável, como uma verdadeira "salvadora" dos estados do Sul contra a invasão vinda do Norte e liderada por negros. Fator agravante: o filme esteve inclusive na origem do ressurgimento da organização, que até então estava moribunda. A polêmica foi tamanha que a obra chegou a ser proibida em várias cidades dos Estados Unidos.

"Ele foi longe demais"

Martin Scorsese, cuja cinefilia é lendária, já se pronunciou diversas vezes sobre este filme, em especial em seu documentário Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano (1995), onde analisa Griffith como um dos grandes "ilusionistas" do cinema — isto é, um realizador que inventou grande parte da linguagem narrativa e da montagem moderna.

"Em O Nascimento de uma Nação, ele foi longe demais diante de suas convicções pessoais sobre a questão racial. Eram suas convicções pessoais, e ele escolheu uma obra, The Clansman, que ia nessa direção e distorcia a realidade. Mas ele realmente acreditava naquilo. Não estou dizendo que seja algo bom. Digo apenas que ele estava verdadeiramente convencido disso. E parte o coração quando você assiste a esse filme. É quase impossível de assistir por causa disso. E acho relevante que esse seja o primeiro longa-metragem americano."

A posição de Scorsese, amplamente compartilhada por historiadores do cinema, divide-se em duas vertentes que coexistem sem se anular. No aspecto técnico e histórico, ele reconhece que o filme é uma obra fundadora, um marco essencial na evolução da linguagem cinematográfica, que influenciou gerações de cineastas depois dele. No que diz respeito ao conteúdo, ele não minimiza o caráter profundamente racista da produção, sua exaltação à Ku Klux Klan e sua representação degradante das pessoas negras, aspecto que ele considera indefensável.

Para além das questões legítimas e extremamente problemáticas que levanta, O Nascimento de uma Nação é de fato uma obra que deve ser vista ao menos uma vez na vida, nem que seja pelo seu valor histórico.

Giovanni Rodrigues
-Redator
Já quis ser X-Men, caça-vampiros e paleontólogo, mas me encontrei no jornalismo. Como todo bom crítico cultural e aficionado por cultura pop, busco saber um pouco de tudo e muito sobre o que quase ninguém liga.
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